
Entrou no bar já um pouco trôpego, ainda sentindo os efeitos da bebedeira do dia anterior. Sentou-se no balcão, limpou o suor do rosto e sorriu nervosamente quando o barman se aproximou.
Tinha saído de casa na noite anterior decidido a encher a cara. Tinha pedido a maior e mais forte garrafa de rancor . "Uma maior do que a de solidão, que venho tomando há algumas noites, lembra?",tinha dito ao barman. Ainda trazia nas veias e na boca o gosto ácido e para se ver livre dele, precisava outra bebida.Contemplou a diversidade de garrafas e seus líquidos coloridos e pediu a mais forte.
O barman sugeriu uma garrafa de amor.
"Qual é ela?É essa rosa?"
"Não tenho como lhe dizer.A cor do amor se dá pelos olhos de quem vê.E só você é que pode identificar qual é a garrafa certa.Mas acho que essa rosa aí é a garrafa de satisfação."
"Ah, satisfação não... é muito vago.Mas, se você não sabe quais são as de amor, como vou poder pedir?"
"Você saberá qual é."
O homem olhou para as garrafas.Ela estava ali. Entre uma garrafa azul royal de indiferença e outra verde esmeralda de esperança desiludida, descansava uma garrafa com a cor mais linda que ele já tinha visto.Sorriu.
"Ah, vejo que você encontrou sua garrafa.Vejo pelo brilho dos olhos e pelo sorriso bobo.Todos ficam assim, é impressionante!"
"Sim... pode pegá-la pra mim?É aquela ali, a segunda da prateleira "
O barman entregou ao homem a garrafa.Ele a olhou num estado que beirava o torpor alucinógeno das drogas.Num estalo, lembrou de onde tinha visto aquela mesma cor e tremulamente, destampou o vidro.Um perfume mais que conhecido se espalhou dentro dele, numa mistura de saudade e a mais plena felicidade. Fechou a garrafa.
"Vai querer um copo?"
"Não... acho que não estou pronto ainda...é, não estou pronto.Entraria em coma, creio...mas até que isso não soa tão ruim.Mas, mesmo assim, acho que não mereço. Tem algo um pouco mais fraco?"
Ele acariciou a garrafa numa despedida doída e olhou para o líquido vermelho que lhe era oferecido.
"Paixão."
Dispensando o copo, tomou o vidro nas mãos e bebeu como se aquilo fosse o próprio elixir da vida.Era quente, vibrante, parecia pintar tudo de um vermelho vivo.Era realmente mais forte que o rancor,levemente doce e se espalhava misturando êxtase e dor. Sentiu que se afogava naquele oceano rubro mas não parou de beber até sentir a garrafa leve como suas pernas há muito já estavam.
Já na rua, saltando sobre poças e cantarolando baixo pegou uma foto polaroid da carteira e fitou os olhos mais lindos do mundo. Os olhos que deram cor àquela garrafa, a segunda da prateleira.Iria ter a melhor ressaca da vida.
Mais uma dose, por favor.
Toscamente talhado por Mai Amorim às 10:57 8 outras dissonâncias
Dispersões ...
Ahh....
os corredores da minha alma:
difusos,
incertos
por certo, inseguros
que guardam desejos , vontades, anseios
proibidos, ardentes, latejantes....
verdadeiros,fortes , reais,
insuportavelmente reais
incansáveis, dolorosos, extasiantes
insuportavelmente extasiantes
ahhh
minha alma ...
Ou simplesmente o que habita dentro desse corpo docemente torturado
Ou simplesmente esse borrão disufo, revolto, perturbado,entorpecido
Ou ainda, Maiara Amorim
Nos últimos dias tenho me sentido (como nos canta Pink Floyd) confortavelmente entorpecida.
Aquele torpor quente, doce, envolvente. Típico de crianças quando ganham aquele doce que estava lá atrás no balcão; aquele que lhes custou as últimas moedinhas do cofrinho (cofrinho este que, não raro, é uma latinha de refri.Bom, o meu era) ; aquele, que dissolve na boca e transforma os segundos em uma eternidade açucarada, única.Aquele doce... simplesmente, aquele.
Talvez seja presunçoso demais comparar o que venho sentindo com uma coisa tão magnificamente pura e simples. Talvez seja mais real comparar-me a alguém que caminha sobre um lago congelado.Alguém incerto a respeito de onde e como dar o próximo passo. Contraditório, não?
Mas talvez... ah, sim... talvez eu seja alguém que caminha sobre um lago congelado enquanto come um doce. Aquele doce.
terça-feira, 14 de agosto de 2007
Toscamente talhado por Mai Amorim às 18:58 4 outras dissonâncias
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