
Os lírios balançavam ao ritmo do vento.Caminhando por entre eles, a menina vestida de sonhos e vontade parou por um instante ao perceber que o ar a sua volta tinha adquirido uma densidade estranha, quase hostil.Olhou para trás e se deparou com um campo de flores secas. Os lírios pelos quais ela havia passado e regado, não passavam de uma massa escura e feia agora.O ar ali atrás não só era denso, mas ácido e cortante.Ela tossiu, sentindo os pulmões se encherem daquela nuvem tóxica e se virou para a frente de novo.
"Eu olho pro infinito
E você de óculos escuros."
Ela sabia que se continuasse caminhando, aquele campo vívido e dançante de lírios à sua frente também se tornaria parte daquela massa necrosada do caminho já trilhado.Como um carma, como uma maldição, ela sabia que era exatamente a sua passagem por aquele rumo mais que almejado, que destruía e queimava os tais lírios.
"Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra."
Ela sabia, também, que parar de tentar chegar onde sempre quis e se manter imóvel para não afetar as flores não era uma solução viável. A terra sob seus pés nus imediatamente queimava feito ferro em brasa, como se a expulsasse dali.E ela tinha que retomar o passo.
"Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era."
Tinha absoluta convicção de que não era desejada ali. Ela não pertencia àquele lugar, não tinha o direito de andar por sobre aquelas terras sagradas. Aquele campo de lírios nunca, nunca seria seu.
"Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade."
Ela andava,então.Com a certeza de que a cada passo seu, o horizonte e o lírio mais precioso se afastavam uns cem quilômetros. Ela andava.
"Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade."
And so it is.
Toscamente talhado por Mai Amorim às 23:10 0 outras dissonâncias Links para esta postagem
Baby, can you feel my halo?
Negar que se tem esperança é um modo de sobrevivência.
É um jeito de nos preservarmos da quase sempre certa e dolorosa decepção pós-expectativa, de fingir que não nos importamos ou ainda que substituímos certos sentimentos.
Negar exaustiva e silenciosamente que se tem esperança, faz disso uma quase verdade. Quase chegamos a acreditar que realmente não nos apegamos aos fiapos de possibilidades esperançosas que surgem nas quinas cheias de farpas da vida.E isso é, de fato, um modo de se sobreviver a tudo.
Entretanto, quando a porta do possível se abre e sentimos que temos novamente um chão para arriscar, essa "reserva" de esperança se mostra algo fundamental na reconstrução da confiança.
Sete meses, muitos desencontros, muitos "adeus,até nunca mais", muita dor, muita negação. A mentira repetida milhões de vezes se mascarou de verdade e eu cheguei a agir sem pretensão, sem segundas intenções, sem projeções, sem pensar na possibilidade do futuro existir.Acho que só consegui passar pelo campo minado com todos os meus membros intactos devido a isso.
E então, num dia 2 de junho, a porta foi escancarada.
Ainda trago a esperança contida, cautelosa. É preciso ir com mais calma dessa vez,sem pular etapas. Mas já é tudo tão nosso, tão encaixado, tão euvocê e não eu_______você, tudo tão... que fica difícil represar.
But honey, where I am.
Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Toscamente talhado por Mai Amorim às 08:11 6 outras dissonâncias Links para esta postagem
Marcadores: Vênus
Requiem

Era um daqueles dias de cor amarga.Enquanto amarrava seus cadarços, parou pra verificar que naquele dia não tinha acordado nem um pouco vermelho por dentro.Estava, sim, recheado e coberto por um cinza ácido.
O lado direito e vazio da cama exalava um cheiro de dor e solidão que o estava sufocando. Abriu as janelas para ventilar o quarto e só então percebeu que as paredes também exalavam tristeza, uma tristeza lilás densa e pegajosa.Jogou o casaco nos ombros e saiu do apartamento.
No caminho para o café, lembrou-se de que 24 horas antes, seus lençóis emanavam um perfume rosa chá sutil marcante e as paredes cantavam realização e plenitude.Agora, as pedras da calçada gritavam frustração e vacuidade.Pôs as mãos no bolso para se proteger da névoa gelada de insegurança que pairava por sobre ele, encolheu os ombros para se proteger do frio cortante da dúvida e apertou o passo.
Já na mesa tomando um chocolate quente, ouvia a melodia absurdamente laranja que os casais ali próximos cantavam em seus sorrisos. Viu-se irritado com aquela ousada alegria açucarada alheia e envergonhou-se com isso.
Ele procurou pensar alguma coisa boa, ter um daqueles pensamentos com um gosto amarelo reluzente mas só o que conseguiu foi leve cheiro de açúcar mascavo.
Era um daqueles dias azedos em que se acorda com só um olfato monocromático quando se tinha dormido com um tato multicolor, que abre os olhos inverno quando tinha dormido primavera.
Inverno.
No dia em que fui mais feliz eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir.
De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal,
Faço longas cartas pra ninguém e o inverno no Leblon é quase glacial.
Há algo que jamais se esclareceu: onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci que o destino sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só,
Sem amarras, barco embriagado ao mar.
Não sei o que em mim só quer me lembrar
Que um dia o céu reuniu-se à terra um instante por nós dois,
Pouco antes de o ocidente se assombrar .
Inverno - Adriana Calcanhotto
Segunda-feira, 16 de Março de 2009
Toscamente talhado por Mai Amorim às 11:41 8 outras dissonâncias Links para esta postagem
Às vezes me preservo
...noutras suicido.
Escrevi isso há uns meses atrás e estou postando por puro bloqueio literário. Tempos de letras magras. Parece até com o post anterior, mas esse é mais recente e foi escrito sob outras circunstâncias. Por mais iguais que eles sejam, são essencialmente diferentes.
[Ah, meu bem... posso tentar transmitir meus pensamentos? Estou aqui sentada naquela parte do parque, sob a sobra daquela "nossa" árvore que nunca descobrimos ao certo de que é, olhando o vento carregar as folhas e os dentes-de-leão. Onde estará você? Provavelmente saindo do banho para se arrumar para o seu grande dia.
Olhando um pouco adiante, eu posso ver o lago.Lembra dos nossos piqueniques, nossos sanduíches de patê, o suco já quente do sol? Eu fugindo das abelhas, tirando as torradas com mel do alcance delas e você rindo me chamando de frouxa.O sol começa a descer no horizonte. Agora você deve estar rodeada pela sua mãe, tias, primas e algumas amigas, colocando o perfeito vestido branco, enquanto segura as lágrimas e abre o sorriso.
Desculpa, na nossa última conversa eu disse que tinha parado de fumar.Eu menti, nunca parei. Mas você já sabia disso, conhece minha voz e minhas entrelinhas. Fumando agora, entre uma tragada e um pensamento, atiro uma pedra na superfície do lago, pra ver quantas vezes ela quica antes de afundar irremediavalmente nas águas escuras.Eu sempre ganhava de você, haha...Você deve ter começado a se maquiar, espalhando todos os seus apetrechos que eu tão afetuosamente ficava olhando você mexer enquanto a hora a avançava e nos atrasávamos para o nosso compromisso. Mas valia a pena, eu ficava ali em um silêncio de veneração, olhando você se arrumar. Talvez você use aquele batom de grife que eu te dei. Seria no mínimo irônico sua boca dizer "eu aceito", pintada no vermelho que eu escolhi a dedo.
O sol já se pôs atrás das colinas, os grilos já fazem aquele barulho que você detestava. Estou voltando pro carro, e é impossível não imaginar que nesse exato instante você também deve estar entrando em um carro com o buquê nas mãos, o sorriso mais lindo de todo o universo estampado no rosto.
(...)
Chego no lugar da cerimônia e num arrepio que não consigo decifrar se é bom ou ruim, te vejo vindo de mãos dadas com a tua escolhida.Nossos olhares se cruzam, eu deixo o lírio branco que trazia nas mãos no tapete vermelho e antes que tua boca forme o meu nome, vou embora.Não quero saber se chegará a trocar alianças, não quero pensar nos seus votos nem na sua lua-de-mel. Só queria ver a felicidade estampada no seu rosto, pra que eu pudesse respirar e dizer "ela está bem". Daqui pra frente,nada me fará mais feliz que isso.]
[Ouvindo Naquela Estação, na voz de Adriana Calcanhotto.]
Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009
Toscamente talhado por Mai Amorim às 16:52 12 outras dissonâncias Links para esta postagem
Vale a pena ler de novo [ou não]
Sim, postando de novo.
Estava lendo os meus escritos passados e me deparei com este. Tinha esquecido do quanto eu gosto dele... então tá aí ele de novo, porque se eu for escrever alguma coisa no estado em que estou, ia machucar. Ia ser forte, doído e direcionado.Talvez a pessoa nem lesse, mas como sempre há a chance, ela iria se ferir e não, não quero isso, nem pra mim, nem pra pessoa.
Lembra? Nós costumávamos ir naquela parte da praia por essas horas.Você dobrava sua calça porque não gostava de sentir a barra molhada tocando na perna, me pegava pela mão e íamos para perto da água.Com as ondas tocando baixo nossos pés e o vento bagunçando nossos cabelos, eu envolvia tua cintura com meus braços e ficávamos assim, abraçadas, até o sol se pôr.A tarde se lacrava com o encontro dos nossos lábios. Depois, fazíamos aquela nossa coisa: escrever trechos de músicas na areia molhada.Como para que não durassem e nós tivéssemos que retornar pra deixar outra inscrição; e outra, e mais outra.
Logo deixamos de escrever apenas na areia molhada.Ah, você lembra de como era gostoso encontrar nossas juras secretas em cada canto inusitado da vida?Pois é... Ainda sinto um leve espasmo quando me lembro da primeira vez que li um trecho de Cássia no espelho do banheiro.Foi bom, foi bom... Você sorria e dizia sonhar em me escrever Cazuza na neve.
Parecíamos viver com uma trilha sonora! Acho que é impossível eu olhar para qualquer CD dessa estante e não associar uma música a algum momento nosso ou a alguma parte do seu corpo.Você está em cada faixa.
Ah, sabe do quê eu me lembrei?De quando eu escrevia na sua agenda com caneta verde alguma música em inglês. Você detestava as duas coisas: a caneta verde e a língua inglesa.E eu docemente lançava o desafio para que você traduzisse. Em troca, você escrevia nos meus cadernos com caneta vermelha alguma coisa em francês.Ainda guardo o dicionário...
Estou sentada agora no sofá.Aquele mesmo onde nos sentávamos depois de um dia particularmente estressante e cuidávamos uma da outra.Aquele sofá que nos custou caro, que nos fez economizar em tudo e nos propiciou os melhores jantares à luz de velas, uma vez que tínhamos que reduzir a conta de energia. Aquele mesmo sofá onde me deitei aquele dia e chorei.
Você não lembra porque não estava aqui.
Daqui eu olho a escrivaninha escura. Aquela, onde você me deixou um papel escrito Cazuza, em caneta azul, junto com a chave do apartamento.Bom, no mínimo, irônico. Cazuza. Nada de neve,só a madeira escura. E a caneta azul, dessas baratinhas mesmo,que a tinta borra tudo.
Falo com a sua secretária eletrônica, que nem ao menos tem uma música agradável de recepção.Só aquela tentativa de reproduzir algo erudito.E eu sei que você está me ouvindo, só não quer atender.Mas essa foi a primeira e última ligação. Meu repertório acabou. Fico só com um requiem, sem letra para te escrever os trechos. Pode ficar com ele todo.
Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009
Toscamente talhado por Mai Amorim às 23:21 5 outras dissonâncias Links para esta postagem
A Sua

Sim, eu estava fugindo dessa conversa. Senta aí na minha frente, deixa eu te olhar nos olhos pra ter um estímulo, uma luz, um sinal, qualquer coisa que me dê coragem de descarnar o sentimento,jogar álcool na ferida, colocar tudo em alto contraste na minha frente e analisar.Eu só preciso que tu saias um pouco de tão dentro de mim, não vou soltar tua mão, prometo. É só que eu não posso olhar pra todo o quadro da situação contigo impregnado em mim, por detrás dos meus olhos, entre meus lábios, expirando enquanto eu inspiro...
Eu costumava viver tranqüila com a tua coexistência, éramos uma unidade harmoniosa: eu não te prendia e nem tu me cegavas,eu não te calava e nem tu abafavas minha voz com gritos alucinados.Jamais, jamais um de nós tomou inteiramente o controle nas mãos, subjugando a outra parte às suas vontades e delírios.O que fizeste com a confiança depositada nessa cumplicidade?
Não venhas me dizer que foste tocado de forma nunca antes conhecida. Eu fui tocada também, uma vez que éramos um só. Por que tomaste as rédeas da situação?Eu que era tão sã, tão equilibrada, tão... me vi acorrentada num querer doar-se, numa abdicação tão grande das minhas necessidades mais primordiais como o amor-próprio,numa auto-flagelação feita com chicote de plumas.
Tu me fizeste contentar-me com coisas que qualquer outra pessoa com o mínimo de discernimento mental e moral acharia irrisório e indigno do trabalho empregado.Pior do que contentar-me, eu me regojizava.Percebes a dimensão das tuas atitudes?Eu me enxergava completa, realizada e plenamente feliz. Completa por uma presença que nem estava por completa ao meu lado,completa por respirar o ar que rodeava aquela presença não-completa, por ouvi-la falar da outra presença que estava longe. A presença longe que a tinha perto, que a completava, a presença que não era minha. Como tu me deixaste sentir isso?
Não, eu não quero que tu sumas de mim.Eu sou feita pra e por você da cabeça aos pés, lembra? Eu só preciso que o controle volte a ficar equilibrado,preciso da minha visão e voz de volta, das minhas pernas e braços, da minha mente. Não, eu não te culpo e não, eu não sofri. Só senti demais, vivi demais;isso exige mais do que sofrer.
Vem, Amor, pode voltar aqui pra dentro.
Domingo, 11 de Janeiro de 2009
Toscamente talhado por Mai Amorim às 22:16 7 outras dissonâncias Links para esta postagem
Marcadores: Amor
Away

Depois de chorar abraçada com seu urso,ligar pra pessoa que acredita amar, ligar para aquelas que tem certeza que a amam e para aquela que um dia a amou, ela tentou dormir, revirando velho texto batido dos amantes mal-amados, dos amores mal-vividos.Sorriu debilmente sabendo que aquilo tudo sempre ficará indo e vindo. E cada vinda, versão nova de uma velha história. Levantou.
A água estava quente, perfumada e acolhedora. Ela abraçava os joelhos, afundada na banheira até o limite dos olhos marejados e opacos. Silêncio.
Os pulmões arderam com a falta de ar e ela ergueu o rosto para respirar, tomando cuidado pra não perturbar a superfície lisa da água: um véu fino e delicado que a cercava. Afundou nele, esticando o corpo.
Abriu os olhos, sentiu o silêncio denso comprimir seus ossos, ouviu sua mente gritar. Só no mais absurdo silêncio ela conseguia se ouvir. Tinha medo de ficar só consigo mesma, porque sabia que a mente sempre tinha razão. Evitava o silêncio no qual ela gritava.
Mas não naquele dia, ela precisava disso. Ignorou o corpo que pedia por ar e sorriu, sentindo aquela imensidão silenciosa e pesada comprimir-lhe contra a porcelana branca.Desejou ficar em uníssono com aquilo tudo, com a água, o silêncio, a solidão carregada. Sentiu-se completa e protegida. Virou-se pro lado, abraçou as pernas e fechou os olhos.
"Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça(...)"
"... Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo, sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo esses dois portos gelados da solidão é vera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o eterno do perecível, loucos".
"Tô exausto de construir e demolir fantasias(...)"
"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. "
Caio Fernando Abreu, alimentando meu devaneio louco.
Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008
Toscamente talhado por Mai Amorim às 11:54 4 outras dissonâncias Links para esta postagem
Marcadores: Utopia