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A tela fria do celular entre nós não era capaz de traduzir o calor e veracidade do afeto que se construiu nesse terreno fértil do encontro dos nossos caminhos. Eu a vi adormecer docemente, embalada por uma paz impossível de ser mensurada. Seu semblante, tão comumente tenso nesses últimos dias, estava tenro, relaxado, livre e sua boca esboçava um sutil sorriso de quem se sabe em segurança. Uma segurança que transcende títulos, rótulos, status: assim como os sentimentos que nos cicundam, ela simplesmente existe e se faz sentir.

O virtual nunca foi tão real. Em tempo, acho que aprendi que sentimentos existem (e coexistem) para além do físico. Na verdade, para além do físico é o que está na essência do sentir. A janela que hoje se abre para nós, que hoje permite o encontro e as gotas diárias de amor, afeto, carinho e cumplicidade, de virtual, fria ou distante não tem nada. 

Mas, e a saudade? Ah, a minha saudade é companhia da caminhada. É o calor do peito que lembra que foi (e é) bom, puro, honesto. Dói? Sim, mas não amputa meu caminhar e nem tampouco me desespera, não me afogo no anseio da espera de vê-la, de perto, novamente. Em seu tempo. Em nosso tempo. 

Tempo, esse moço antigo com alma de moleque, que vive pregando peças nos desavisados dessa vida que acham que existe uma lógica linear no viver. Tolos! Mal sabem que a vida é qualquer coisa menos retilínea... e isso é belo.

E, através da tela, vi o seu sono cada vez mais profundo. A essa altura deveria estar perdida em sonhos e eu fechei os olhos pedindo para que eu estivesse neles. Para estar junto não precisa estar perto. A racionalidade nos puxa, por vezes nos oprime e sufoca. Decerto que é necessária às vezes, mas não deve ser a bússola da vida: onde tu queres norte, a vida de dá fluxo. Sente, pega e vai (vem).

Sorri do lado de cá da tela. Juntas, sempre. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Vôos

Conheci um raio de sol, metamorfoseado em uma menina mulher.

Eu tive certeza de que era um raio de sol quando num simples abrir de lábios em um sorriso, aqueceu meu peito e fez meu próprio sorriso escancarar. Eu tive mais certeza ainda quando me pegou pela mão,quente, e aqueceu minha alma com afeto. Afeto doce, tenro, mas ao mesmo tempo firme e forte. Como um raio de sol, se faz presente mesmo sem ser vista. A sinto. E a sinto comigo, sempre, a envolver minha pele com seu calor, a aquecer meus pés e mãos gelados, a me aquecer. Sem me queimar.

Conheci um trovão,  metamorfoseado em uma menina mulher.

Eu tive certeza de que era um trovão quando sua voz reverberou dentro de mim e sentou morada, me fazendo vibrar e estremecer, porém sem me assustar. Tive mais certeza ainda de que era um trovão quando, ao sussurrar coisas ao meu ouvido, fez barulho dentro de mim, mas sem me calar. Um trovão, o anúncio majestoso de que coisas grandiosas estão por vir.

Conheci uma labareda de fogo,  metamorfoseada em uma menina mulher.

Eu tive certeza de que era uma labareda quando a olhei nos olhos de âmbar e vi sua intensidade indomável, dançante e hipnotizante. De nada adiantaria muros, rédeas, normas ou regras - essa labareda tem sua própria  lei, algumas vezes perigando consumir-se em si mesma. Tive mais certeza ainda de que era uma labareda quando colou seu corpo no meu e incendiou meus sentidos.

(Re)Conheci um pedaço de mim em outro lugar, metamorfoseado em uma menina mulher.

E eu tive certeza quando simplesmente percebi que aquilo tudo era caminho conhecido, chão já trilhado, lar. Não há possibilidade de me perder de ti. Voa, está tudo seguro.



sábado, 10 de agosto de 2019

Entraves

- Eu tô cansado, cara. Sabe, eu já me perdi tanto de mim nessas trilhas da vida, já me metamorfoseei em tantas coisas para me adaptar... Adaptar ou encaixar? Ah, não sei... é diferente, será? Enfim, para me adaptar ao que estava na minha frente que eu olho pra mim e não sei o que é meu, o que foi mexido, o que eu construí, o que construíram em mim... Viver é isso mesmo? 

- Não, não acho que seja. Acho que vida é troca. E nessa troca, às vezes a gente soma, às vezes subtrai, às vezes multiplica. Às vezes joga fora algo que não era tão legal e aprende uma nova forma e às vezes aprimora o que gente já tinha. Mas sabe, meio que num equilíbrio, saca?

-Ah, bicho! E tu vai me dizer que a gente consegue separar até onde é equilibrado e quando a gente já passou do limite do que é caro pra nós? Pffff, conta outra! A gente jura de pé junto que não tá se sabotando. Que não tá mudando pra tentar suprir a um ideal externo. Que tá fazendo tudo em plena consciência. A gente aperta o botão na mente "estou ciente e quero continuar" igualzinho faz nos sites: leu porra nenhuma dos termos, só quer passar pro próximo nível.


- Não, cara. Tu tem que ter o mínimo de senso de conhecimento pessoal, pô. Senão tu te perde...

- Mas não é isso que tô falando, pô? A questão é cadê esse conhecimento? Como é que a gente tateia o que de fato é nosso? Pode ver,  só depois que o caldo entorna que tu vai ver os limites que tu ultrapassou, a pessoa que tu tentou ser... Ah, eu tô exausto... Exausto de nem sequer saber quem sou eu mesmo no final das contas. 

- Acho que a gente é tudo isso aí, sabe. Não dá pra separar. A gente é a síntese disso tudo, de todos os processos pelos quais passamos, os bons e os ruins. Às vezes a gente se perde mais, às vezes menos... Tem coisa que custa mais da nossa reserva de energia, da nossa capacidade de se flexibilizar. Sabe, tipo uma mola!

- Mas tu sabe que até a mola tem um limite, né? Um limite que aguenta ser deformada e retornar à sua forma original. Quando passa disso, crec, deforma e não volta mais.

- Mas quem sabe aí não seja uma coisa tão ruim não voltar ao seu estado original né. É uma nova forma de existir...

- Uma nova forma que não tem mais a serventia que se propunha, idiota! Pra que serve uma mola deformada?

[silêncio]

- Sei lá, cara. Quem disse que tem que ter uma serventia? A gente não é mola. Não é objeto com uma finalidade.

- Quem fez a comparação com mola foi tu primeiro.

[mais silêncio]

- Viver não tem manual. É isto. E sabe, a gente não tem que entender nada não. A vida não faz sentido, ela faz sentir. Põe um passo atrás do outro e segue, cara, o negócio é seguir. A vida muda todo dia, não tem como achar lógica nisso.

- A vida faz sentir...

domingo, 2 de junho de 2019

Suspiro

Eles bradam:
O amor está no grito dado aos quatro cantos do mundo. Está no estardalhaço causado no meio da rua. Nas declarações marcadas em cada muro da cidade.

Eu sussuro:
O amor está no silêncio do escuro do quarto. No compasso dos corações.

Dava de ver tua costa subindo e descendo devagar com tua respiração profunda e densa, aquela que tu faz quando está completamente relaxada. A boca semi aberta num esboço de sorriso, a expressão de leveza e segurança. Tirei a mecha de cabelo que caíra por cima de teus olhos e pus por detrás da orelha com cuidado, pra não romper com teu sono.

Eles afirmam:
O amor reside nos grandes sacrifícios. Repousa nos braços da resignação.

Eu sinto:
O amor mora na leveza. Nasce na simplicidade daquilo que flui, cresce na caminhada cotidiana e descansa no refúgio da cumplicidade.

Agora dava de ver perfeitamente o caminho do teu rosto. Sabe, cabe um universo de sensações descendo nessa trilha - sobrancelhas, olhos, nariz, boca, queixo - e eu poderia morar nele o resto da vida. Cheguei mais perto de ti, tocando meu rosto no teu, bem naquele lugar que a gente se encaixa perfeitamente e onde tu tem um cheiro diferente, especial, todo teu. Respirei bem devagar e fui sendo preenchida pouco a pouco com teu aroma. 


Eu vivo:
O amor está no toque, no sorriso arrancado quando menos se espera. Está também na pele, no desejo que acende e queima, nos corpos pulsantes. O amor está onde a gente se complementa, acrescenta, soma - e não simplesmente completa, como partes soltas que se juntam. Está em nós. Vem comigo?



quinta-feira, 30 de maio de 2019

Incertezas


[Um escrito não representativo da atualidade, mas que fez barulho até ser expelido.]

Teu olho despencou de mim
Não reconheço a tua voz

A morte de um sentimento é algo complexo. Estranho, eu diria no mínimo. As coisas que se transformam, que eram e deixam de ser ou que não eram e passam a ser. Ou, pior, que nunca foram e a gente jurava que era.
Acreditava piamente, de pés juntos que era. Tanto que não dá nem para saber se era real ou se fizemos que parecesse real. Faz diferença, ao final?

Não sei mais te chamar de amor
Não ouvirão falar de nós

A morte de um amor é ainda mais complexa. Ou estranha, sei lá. Acontece de vários jeitos, mas o final é basicamente o mesmo. A nossa não foi diferente, não é mesmo? As coisas deixaram de se encaixar. Ou talvez, nunca se encaixaram e prosseguíamos ignorando calos em formação, as bolhas nos pés, as arestas que cortavam a carne de fino.

A gente se esqueceu, amor
Certeza não existe não
E a pressa que você deixou
Não vem em minha direção

Tu tinhas tanta sede, tu tinhas tanta pressa. Tanta gana por algo que nem sei e ao mesmo tempo tanta trava. E eu corri contigo, travei nas tuas retrancas, aguardei teu tempo que no final das contas não foi meu. Tua pressa? Ah, tua pressa definitivamente não veio em minha direção.

Parece que o tempo todo
A gente nem percebeu
Que aqui não dava pé não
Que tua amarra no meu peito não se deu
Te vi escapar das minhas mãos

E tava tão, mas TÃO na cara de que não daria pé que nem te vi escapar, sabe, daquele jeito melancólico, aos poucos, escorrendo entre os dedos que a gente ainda tenta aparar. Foi mesmo de vez, de piscar de olhos que tu foste. Algum dia esteve?
Realidade é um conceito abstrato demais pra mim. Ponderar o que de fato é, o que de fato foi. Cada um tem uma visão de mundo que é um recorte, uma perspectiva, apenas. E a tua sempre foi inabalável. Rígida, altiva. Talvez a minha também. 

Eu te busquei, mas
Não vi teu rosto não
Eu te busquei, mas
Não vi teu rosto
Não (*)


(*) Cecília - Anavitória

domingo, 24 de março de 2019

Enlaces







Fica mais um pouco, vai?


Pra eu poder deitar no teu peito, enquanto tu me enlaça no teu abraço apertado. Sabe, daquele jeito que meu rosto fica perto deu teu pescoço e basta um leve movimento pra eu enterrar o nariz naquele lugarzinho que te digo que tem um cheiro diferente e especial.

Ah, vai... não levanta.

Isso, assim. Deixa eu me perder no castanho dos teus olhos e no brilho do teu sorriso. Pára de virar o rosto com vergonha hahaha! Não sabe que vou te olhar assim pro resto da vida, se tu deixar? Com o coração dando uns mini infartos a cada olhar e cada toque lento.

Fica mais um pouco...

Pra pele arrepiar enquanto eu deslizo os dedos nas tuas costas e tu me afaga os cabelos. Ponto fraco, sacanagem! Isso, fica aí rindo da minha cara boba.

Fica...

Fica pra sempre.

Fica pra abrir e fechar meus dias. Nossos dias. Fica pra se perder na nossa paz e calmaria que tanto dizem de nós. Fica pra me ensinar teu jeito leve de viver a vida. Fica, principalmente, por querer ficar. 

O amor, ele pode ser leve. Mais que isso, talvez, ele deve ser leve. 

sábado, 4 de agosto de 2018

Amor acobreado



Tem hora que parece que a vida tá toda certinha, nos trilhos.
Aí, subitamente, não tá mais. Você se vê meio atordoado, ao perceber o que o trilho não está mais sob seus pés, que não há por onde seguir. É estranho, a sensação que chega e te abate é de que está tudo errado, tudo fora do lugar.

Então,você repara ao seu redor e percebe que além do trilho há uma trilha de seixos e grama, há um campo de girassóis, há uma relva mais adiante... Há caminhos. Não há um melhor ou pior que outro, há apena aquilo que te envolve e te toca.

As coisas acontecem sem que você perceba. Elas não dão alarde, não dão aviso nem sinal. Só chegam - umas mais impetuosas, revirando tudo de uma vez, outras mais serenas - e fazem morada.
Quando menos se espera, os corpos se unem em perfeita harmonia como se feitos sob medida, o sentimento floresce, as mentes crescem juntas.

Fluxo.


~ Aquele mar acobreado dos teus cabelos bem na altura do meu rosto borrava um pouco minha visão e me deixava confortavelmente entorpecida com o golpe certeiro daquele teu cheiro. Tua pele branca contrastando com a minha, levemente arrepiada ao meu toque. Tu ajeitaste o corpo em cima de mim e na calmaria que reina quando estamos assim, pude sentir teu coração pulsando junto ao meu. Primeiro, cada qual em seu ritmo. Depois, como se também refletissem nossa sintonia, iguais. Paz. Me deixa morar no teu vermelho. ~

domingo, 18 de março de 2018

 
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