E alguém sabe?

Não,não venha com esse abraço vago e frio. Me ouça, eu quero falar, só falar. Passa pra cá essa garrafa; não.não o copo, pra quê copo? Tem gargalo não é? Não me olha com essa preocupação cínica de quem não tá nem aí e finge estar! Ouve.

Sabe? É esse não sentir nada. É esse sentir tudo. É esse vazio cheio de... sei lá o quê. É, é... vazio cheio... cala a boca, ouve! É como se eu subisse uma montanha, chegasse ao topo e olhasse lá pra baixo. Daí, depois de toda a luta pra subir, eu sinto uma puta vontade de pular, entende? Um anseio,um desejo, uma necessidade. Outra, outra. Garrafa, cara, outra garrafa. Anda, dá logo aqui.

É da mesma de ainda há pouco? Parece mais fraca. Não, não é porque eu já tô bêbada, mas que idiotice.Sim, deixa eu falar, levanta não. Eu sei, eu sei, você nem me conhece, e daí? Você por acaso tem algo mais interessante pra fazer do que ficar ouvindo uma desconhecida proferindo filosofias etílicas num balcão sujo de um bar nojento? Hum, sabia que não.

Então, é estranho isso de se envolver.

Não, bicho, não tô chorando, tá louco?

Sim, quero outra garrafa. Suficiente? Nunca é suficiente, filho. Ah, criança, você tem muito o que aprender dessa vida de cão.

Amor? Ah, claro que acredito. Por qual outro motivo eu estaria aqui, nesse bar, bebendo, falando com um completo estranho? Amor, querido, amor! O topo da tal montanha, mas também o que tem lá embaixo me puxando. As pedras que formam a subida, mas também as árvores que formam o tapete verde no qual eu quero pular.Ai, cuidado com essa cinza desse cigarro! Põe a mão pra lá, deixa eu deitar meu rosto no teu braço. Ah, cara...

Ok, encheu de mim já? Meu nome? Pra quê, cara? Olha, eu vou indo, pega aqui esse dinheiro, tô pagando a bebida. Você tá ainda abrindo o caminho, ainda nem olhou a base da montanha, tá cortando o mato em volta, se furando nos espinhos e bebendo a água que se acumula nas folhas depois da madrugada. Sobrevivendo. Quando chegar na montanha, você vai aprender a viver. Como eu sei que você já não chegou lá? Ora, se por acaso tivesse, não ficaria me ouvindo com tal sede de saber.Ia achar que já sabe exatamente como trilhar o caminho. Que engano, meu Deus. E alguém sabe?

Não esqueça de se jogar se der vontade.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Sentimentos lacrados


Só mais um pouco e então, tudo certo...Droga, escapou de novo. Espera, é só uma questão dela conseguir se concentrar. Droga, escapou de novo. Ela já estava vendo a pontinha verde brilhante... era uma das boas essa. Era não, É! Ainda está ali rondando. Apertou mais os olhos até sentir uma certa tontura e respirou fundo.
Pronto, pegou!
Rapidamente catou um frasquinho de vidro e envasou a coisa, antes que ela escorresse pelos dedos. Só então, analisou melhor: era verde, como as outras.E isso era bom, queria dizer que ainda era válida. Apertou o frasco no peito e correu.
O armário era de cedro, minuciosamente polido, brilhante. Ela passou os dedos pelo desenho da madeira e o abriu.Sem delongas, ajeitou o frasco numa das prateleiras e se afastou para examinar, orgulhosa, seu tesouro.
Cinco prateleiras, inúmeros frascos. Todos com um conteúdo verde, só variando no tom. A garota sorriu triunfante, lacrou o armário e foi-se embora.

Colecionava esperanças.

sábado, 12 de abril de 2008

Mais uma dose, por favor.


Entrou no bar já um pouco trôpego, ainda sentindo os efeitos da bebedeira do dia anterior. Sentou-se no balcão, limpou o suor do rosto e sorriu nervosamente quando o barman se aproximou.

Tinha saído de casa na noite anterior decidido a encher a cara. Tinha pedido a maior e mais forte garrafa de rancor . "Uma maior do que a de solidão, que venho tomando há algumas noites, lembra?",tinha dito ao barman. Ainda trazia nas veias e na boca o gosto ácido e para se ver livre dele, precisava outra bebida.Contemplou a diversidade de garrafas e seus líquidos coloridos e pediu a mais forte.
O barman sugeriu uma garrafa de amor.
"Qual é ela?É essa rosa?"
"Não tenho como lhe dizer.A cor do amor se dá pelos olhos de quem vê.E só você é que pode identificar qual é a garrafa certa.Mas acho que essa rosa aí é a garrafa de satisfação."
"Ah, satisfação não... é muito vago.Mas, se você não sabe quais são as de amor, como vou poder pedir?"
"Você saberá qual é."

O homem olhou para as garrafas.Ela estava ali. Entre uma garrafa azul royal de indiferença e outra verde esmeralda de esperança desiludida, descansava uma garrafa com a cor mais linda que ele já tinha visto.Sorriu.
"Ah, vejo que você encontrou sua garrafa.Vejo pelo brilho dos olhos e pelo sorriso bobo.Todos ficam assim, é impressionante!"
"Sim... pode pegá-la pra mim?É aquela ali, a segunda da prateleira "
O barman entregou ao homem a garrafa.Ele a olhou num estado que beirava o torpor alucinógeno das drogas.Num estalo, lembrou de onde tinha visto aquela mesma cor e tremulamente, destampou o vidro.Um perfume mais que conhecido se espalhou dentro dele, numa mistura de saudade e a mais plena felicidade. Fechou a garrafa.
"Vai querer um copo?"
"Não... acho que não estou pronto ainda...é, não estou pronto.Entraria em coma, creio...mas até que isso não soa tão ruim.Mas, mesmo assim, acho que não mereço. Tem algo um pouco mais fraco?"
Ele acariciou a garrafa numa despedida doída e olhou para o líquido vermelho que lhe era oferecido.
"Paixão."

Dispensando o copo, tomou o vidro nas mãos e bebeu como se aquilo fosse o próprio elixir da vida.Era quente, vibrante, parecia pintar tudo de um vermelho vivo.Era realmente mais forte que o rancor,levemente doce e se espalhava misturando êxtase e dor. Sentiu que se afogava naquele oceano rubro mas não parou de beber até sentir a garrafa leve como suas pernas há muito já estavam.

Já na rua, saltando sobre poças e cantarolando baixo pegou uma foto polaroid da carteira e fitou os olhos mais lindos do mundo. Os olhos que deram cor àquela garrafa, a segunda da prateleira.Iria ter a melhor ressaca da vida.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

 
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