Suspiro

Eles bradam:
O amor está no grito dado aos quatro cantos do mundo. Está no estardalhaço causado no meio da rua. Nas declarações marcadas em cada muro da cidade.

Eu sussuro:
O amor está no silêncio do escuro do quarto. No compasso dos corações.

Dava de ver tua costa subindo e descendo devagar com tua respiração profunda e densa, aquela que tu faz quando está completamente relaxada. A boca semi aberta num esboço de sorriso, a expressão de leveza e segurança. Tirei a mecha de cabelo que caíra por cima de teus olhos e pus por detrás da orelha com cuidado, pra não romper com teu sono.

Eles afirmam:
O amor reside nos grandes sacrifícios. Repousa nos braços da resignação.

Eu sinto:
O amor mora na leveza. Nasce na simplicidade daquilo que flui, cresce na caminhada cotidiana e descansa no refúgio da cumplicidade.

Agora dava de ver perfeitamente o caminho do teu rosto. Sabe, cabe um universo de sensações descendo nessa trilha - sobrancelhas, olhos, nariz, boca, queixo - e eu poderia morar nele o resto da vida. Cheguei mais perto de ti, tocando meu rosto no teu, bem naquele lugar que a gente se encaixa perfeitamente e onde tu tem um cheiro diferente, especial, todo teu. Respirei bem devagar e fui sendo preenchida pouco a pouco com teu aroma. 


Eu vivo:
O amor está no toque, no sorriso arrancado quando menos se espera. Está também na pele, no desejo que acende e queima, nos corpos pulsantes. O amor está onde a gente se complementa, acrescenta, soma - e não simplesmente completa, como partes soltas que se juntam. Está em nós. Vem comigo?



quinta-feira, 30 de maio de 2019

Incertezas


[Um escrito não representativo da atualidade, mas que fez barulho até ser expelido.]

Teu olho despencou de mim
Não reconheço a tua voz

A morte de um sentimento é algo complexo. Estranho, eu diria no mínimo. As coisas que se transformam, que eram e deixam de ser ou que não eram e passam a ser. Ou, pior, que nunca foram e a gente jurava que era.
Acreditava piamente, de pés juntos que era. Tanto que não dá nem para saber se era real ou se fizemos que parecesse real. Faz diferença, ao final?

Não sei mais te chamar de amor
Não ouvirão falar de nós

A morte de um amor é ainda mais complexa. Ou estranha, sei lá. Acontece de vários jeitos, mas o final é basicamente o mesmo. A nossa não foi diferente, não é mesmo? As coisas deixaram de se encaixar. Ou talvez, nunca se encaixaram e prosseguíamos ignorando calos em formação, as bolhas nos pés, as arestas que cortavam a carne de fino.

A gente se esqueceu, amor
Certeza não existe não
E a pressa que você deixou
Não vem em minha direção

Tu tinhas tanta sede, tu tinhas tanta pressa. Tanta gana por algo que nem sei e ao mesmo tempo tanta trava. E eu corri contigo, travei nas tuas retrancas, aguardei teu tempo que no final das contas não foi meu. Tua pressa? Ah, tua pressa definitivamente não veio em minha direção.

Parece que o tempo todo
A gente nem percebeu
Que aqui não dava pé não
Que tua amarra no meu peito não se deu
Te vi escapar das minhas mãos

E tava tão, mas TÃO na cara de que não daria pé que nem te vi escapar, sabe, daquele jeito melancólico, aos poucos, escorrendo entre os dedos que a gente ainda tenta aparar. Foi mesmo de vez, de piscar de olhos que tu foste. Algum dia esteve?
Realidade é um conceito abstrato demais pra mim. Ponderar o que de fato é, o que de fato foi. Cada um tem uma visão de mundo que é um recorte, uma perspectiva, apenas. E a tua sempre foi inabalável. Rígida, altiva. Talvez a minha também. 

Eu te busquei, mas
Não vi teu rosto não
Eu te busquei, mas
Não vi teu rosto
Não (*)


(*) Cecília - Anavitória

domingo, 24 de março de 2019

Enlaces







Fica mais um pouco, vai?


Pra eu poder deitar no teu peito, enquanto tu me enlaça no teu abraço apertado. Sabe, daquele jeito que meu rosto fica perto deu teu pescoço e basta um leve movimento pra eu enterrar o nariz naquele lugarzinho que te digo que tem um cheiro diferente e especial.

Ah, vai... não levanta.

Isso, assim. Deixa eu me perder no castanho dos teus olhos e no brilho do teu sorriso. Pára de virar o rosto com vergonha hahaha! Não sabe que vou te olhar assim pro resto da vida, se tu deixar? Com o coração dando uns mini infartos a cada olhar e cada toque lento.

Fica mais um pouco...

Pra pele arrepiar enquanto eu deslizo os dedos nas tuas costas e tu me afaga os cabelos. Ponto fraco, sacanagem! Isso, fica aí rindo da minha cara boba.

Fica...

Fica pra sempre.

Fica pra abrir e fechar meus dias. Nossos dias. Fica pra se perder na nossa paz e calmaria que tanto dizem de nós. Fica pra me ensinar teu jeito leve de viver a vida. Fica, principalmente, por querer ficar. 

O amor, ele pode ser leve. Mais que isso, talvez, ele deve ser leve. 

sábado, 4 de agosto de 2018

Amor acobreado



Tem hora que parece que a vida tá toda certinha, nos trilhos.
Aí, subitamente, não tá mais. Você se vê meio atordoado, ao perceber o que o trilho não está mais sob seus pés, que não há por onde seguir. É estranho, a sensação que chega e te abate é de que está tudo errado, tudo fora do lugar.

Então,você repara ao seu redor e percebe que além do trilho há uma trilha de seixos e grama, há um campo de girassóis, há uma relva mais adiante... Há caminhos. Não há um melhor ou pior que outro, há apena aquilo que te envolve e te toca.

As coisas acontecem sem que você perceba. Elas não dão alarde, não dão aviso nem sinal. Só chegam - umas mais impetuosas, revirando tudo de uma vez, outras mais serenas - e fazem morada.
Quando menos se espera, os corpos se unem em perfeita harmonia como se feitos sob medida, o sentimento floresce, as mentes crescem juntas.

Fluxo.


~ Aquele mar acobreado dos teus cabelos bem na altura do meu rosto borrava um pouco minha visão e me deixava confortavelmente entorpecida com o golpe certeiro daquele teu cheiro. Tua pele branca contrastando com a minha, levemente arrepiada ao meu toque. Tu ajeitaste o corpo em cima de mim e na calmaria que reina quando estamos assim, pude sentir teu coração pulsando junto ao meu. Primeiro, cada qual em seu ritmo. Depois, como se também refletissem nossa sintonia, iguais. Paz. Me deixa morar no teu vermelho. ~

domingo, 18 de março de 2018

Maré alta


Sabe aquela menina que apreciava mais fazenda do que o caminho? (vide esse post)

Então, ela mudou. Não que o jeito antigo de viver os caminhos e as fazendas fosse errado ou ruim, mas é que a gente, em algum momento, sente que precisa se permitir mudar, abrir as portas da mente e do coração para novas formas de viver. É bom.

O fato é que a gente é acostumado a se olhar muito pouco. Sabe, aquele olhar sem julgamentos e principalmente despojado de qualquer expectativa, apenas o olhar que capta o que realmente estamos sentindo, o que realmente estamos querendo naquele momento. A gente se acostuma a ir pegando os fragmentos das coisas, os pedaços dos sentimentos e ir amarrando num ideal que acreditamos ser o que devemos seguir e perseguir ad infinitum. Às vezes funciona. 

Mas tem vezes que a gente se lança no meio maré, fica à mercê do movimento das ondas, indo para onde elas estão nos jogando. Não se atenta sobre a temperatura da água, se está quente, morna, fria, aconchegante ou hostil. Não se atenta se está raso, a ponto de ser perigoso raspar os joelhos no fundo a qualquer movimento, ou se está fundo a ponto de perigar não ser possível retornar para a margem. Simplesmente não nos deixamos à disposição para ler as situações, ler nosso corpo, nossa mente e nosso coração. E vamos indo, subindo e descendo nas ondas, pro raso e pro fundo.

A verdade é que causa incômodo, sabe. Pensar sobre velhos hábitos, refutar a imagem encrustada que a gente tem de si. Perceber que tem coisa ruim na gente, coisa errada. E que tem coisa boa também, mas que vai dar um certo trabalho pra deixar nascer, florescer. A gente muda, e ponto. Por que é tão difícil de aceitar isso? Não que não exista nada mais ou menos estável em quem somos, longe disso. Mas a vida tá aí colocando uma centena de novas informações e possibilidades a cada levantar e descer do sol, coisas que ignoramos por estarmos cegos. Nos falta auto consciência.

Então, a menina que apreciava mais o montar o ninho, aprontava a fazenda com pressa e punha tudo para funcionar como se tudo que importasse era que ali fosse assentar moradia até os fins dos tempos aprendeu que o caminho pode ser igualmente interessante.

Aprendeu que há diversas formas de se trilhar o caminho, e que nenhuma é melhor ou mais importante do que a outra, todas tem sua beleza. E, talvez o mais importante, aprendeu que chegar na fazenda não significa o fim do caminho, agora ela vai e vem, ora na fazenda, ora apreciando as belezas do caminho. Ambos não se dão mais por finalizados, estão em constante mudança e crescimento.

O amor é sutil demais. É extremamente mutável, capaz de se apresentar de infinitas formas. Nossa falta de tato, nossa falta de consciência pessoal, mutilam o sentimento à medida em que fechamos os olhos para essas nuances. De novo, o tal do ideal encrustado, rígido. Imposto. Por quem? Não importa.

Que entremos na maré sabendo que estamos entrando. Que façamos o caminho ou a fazenda sem nos fecharmos em nada. Que amemos. 


domingo, 20 de agosto de 2017

Evoluções

É a pele, sabe?
A fusão das energias acontece bem ali, poro a poro. Aquele fervor súbito, trôpego, rápido, que por alguns instantes balança os sentidos e faz o mundo interior parecer maior. A pele, fio a fio.

É o cheiro, sabe?
Aquele golpe certeiro, o bálsamo que faz parar o tempo por alguns segundos eternos em meio ao turbilhão de caos chamado vida. Faz morada na memória,preenche cada pedacinho dela e desperta ao menor sinal.

É o gosto, sabe?
Doce e salgado, diametralmente complementares. Sentido? Nenhum. É uma revoada, uma força que invade a boca, cola na língua, escorrega pro estômago e faz marca. Acompanha pra todos os lados que se vá. 


~ Puxou a agulha e verificou se a costura havia ficado firme. Sim, havia. Deu um sorriso de satisfação pelo trabalho bem executado e contemplou a peça recém adicionada ao conjunto: era vermelha, com alguns toques alaranjados e pequenas partículas acinzentadas, que fugiam ao olhar quando se buscava encarar diretamente uma a uma. Tinha cheiro de entardecer no campo, com um toque de orvalho. O trançado dos fios era forte, resistente, porém de uma leveza jamais antes vista nos outros retalhos. Encostou o rosto no tecido e constatou que a sua leveza o fazia ser extremamente maleável e confortável, de modo que se adaptava às curvas do rosto sem agredi-lo ou sufocá-lo. Olhou pra todo o conjunto da colcha de seu afeto e sorriu satisfeita em acompanhar o traçado da linha que, sem menosprezar as peças antigas, ia se tornando mais firme  e complexo. A peça vermelha, ariana impetuosa, estava longe de se dar por finalizada ~

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O que importa?

31/08/2014

Não importa.
Tu podes acordar todos os dias antes mesmo do sol raiar dissolvendo a bruma e ir deitar tua cabeça no travesseiro altas horas da madrugada, que ainda assim não terá tempo hábil para dar conta das coisas.
Não importa.
Tu podes tecer o mais belo cobertor para aplacar o frio de alguém em especial com os fios da tua própria sanidade e integridade mental, que nunca será suficiente.
Não importa.
Tu podes abrir mão de tudo o que um dia julgaste importante ou parte constituinte de um algo maior a que você costumava chamar personalidade/subjetividade (ou qualquer uma outra baboseira que no final das contas não passa de doce ilusão) para se empenhar em outras jornadas, que isso nunca, nunca será nem de perto suficiente ou valoroso.
Não importa.
Não importa o quanto corras, não importa o quanto chores, não importa o quanto cresças, não importa o quanto te julgues coerente em teus atos, não importa se depreendes toda a tua energia para fazer algo acontecer, não importa se não sonhes, não importa se sonhas, não importa se sentes dor, não importa se te comprazes com isso ou aquilo.

No final das contas, nada importa, tu sempre vais falhar em algo. Estás fadada a ser eternamente incompleta, eternamente aquilo que tinha tudo para ser e não foi. E isso será o melhor que conseguirás fazer. Tua caminhada anterior não importa, ela se define segundo a segundo, falha a falha. Tu passarás a vida inteira andando em uma esteira que corre no sentido contrário.

Não importa.

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14/04/2017

Na verdade, importa.

Ou, pensando melhor, você é que define se importa ou não. Aprende que existem duas coisas bem distintas que costumamos mesclar e enxergar de forma indistinta: aquilo que é seu mundo interior e aquilo que você traz de fora, o mundo fora do seu mundo que você acredita piamente que faz parte de quem você é.

Então, quando a medida passa a não mais ser externa, não mais ser o outro, quando o outro é processo e não finalidade, tudo isso importa. Cada coisa com seu peso, claro. Estou dizendo que você é o centro de todo o universo e o outro que se exploda? Não exatamente. É mais no sentido de que o modo como enxergamos e lidamos com as coisas tem consequências na forma como isso reverbera em cada minuto do nosso dia. Obviamente que não há certo e errado, porque cada estrada é singular e funciona diferente pra cada um. A diferença é quando você consegue perceber que tipo de passo está dando, que tipo de material está usando para fazer a caminhada - se eles tornam ela mais fácil, são adequados, ou se tornam o caminho mais difícil de ser trilhado.

Ou seja, é você.

Abandonar padrões de comportamentos é uma tarefa árdua e nem sempre você está preparado para isso. Existem coisas que passam uma vida inteira funcionando pra gente, até que chega uma hora que puf, não funciona mais. Aprender novos parâmetros não é simples, ainda mais quando caímos na fácil armadilha que é crucificar o que passou. A culpa consome, deixamos de enxergar o crescimento que tivemos, deixamos os sentimentos turvos.

Viver é um eterno construir e reconstruir. E tudo, tudo importa.

domingo, 31 de agosto de 2014

 
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