No silêncio que fala

"(...)

O tempo vai passar
E tudo vai entrar
No jeito certo
De nós dois...

As coisas são assim
E se será, será
Prá ser sincero
Meu remédio é
Te amar, te amar...

Não pense, por favor
Que eu não sei dizer
Que é amor tudo
O que eu sinto
(...)"

Pra ser sincero - Marisa Monte


Ela o olhava exasperada.Olhos vermelhos cheios de lágrimas, respiração ofegante, boca trêmula, palavras proferidas numa intensidade não calculada.Ele a encarava sério, pensativo. Bem daquele jeito introspectivo típico, que tanto incomodava a ela em momentos como aquele.Não disse nada, apenas a puxou um pouco e, como não encontrasse resistência, a deitou confortavelmente no seu colo.Passou a mão delicadamente pelos cabelos negros dela,enquanto ela recomeçava o desabafo.Convulsões de palavras, vômitos de sentimentos presos.Como ele ainda mantivesse o silêncio, ela se levantou e cobrou um argumento, um posicionamento, qualquer resquício de voz, para que aquela sensação de que "ele não está nem aí" passasse.Diante disso, ele se remexeu desconfortável e disse algumas coisas que pouco diziam o que ele realmente sentia.

Ele nunca foi bom com as palavras quando se tratava de sentimento; na verdade, achava-as um tanto quanto desnecessárias em certas circunstâncias. Talvez porque sua vida fosse muito conotativa e ele nunca se importara em legendar sentimentos.Talvez porque tivesse se doado por inteiro àquela que agora cobrava palavras, e uma vez tendo feito isso, se julgava transparente o suficiente para que não precisasse valer-se de um artifício tão HUMANO como as palavras para descrever uma coisa tão SUBLIME como sentimentos.Claro que verbalizava algumas coisas. Claro que sabia o valor de um sentimento expresso, de um "te amo" sussurado ao ouvido, de um "você é muito importante para mim", olhado nos olhos... mas vejam que não só só palavras.Essas mesmas frases ditas sem aquele tremor de voz característico, sem aquele brilho no olhar, sem aquela perda de fôlego quase imperceptível, não seriam nada mais do que frases soltas.E foi preciso, necessariamente, que se dissesse cada sentimento vivenciado, para que se verdadeiramente sentisse??

Ok,ok... talvez ele tivesse tentando achar argumentos para justificar uma grande falha: essa incapacidade de falar as coisas. Pensava exatamente tudo isso quando veio à sua cabeça uma série de cenas, beijos, toques, olhares, sorrisos, corpos, almas... olhou para a amada que continuava a encará-lo, indignada com aquele silêncio e confusa pelas poucas palavras que ele articulou. E, num beijo,disse que a amava mais que tudo. Com o toque nas costas dela, disse que sem ela não saberia viver.Com a língua a acariciar os lábios dela, disse que ele nunca a deixaria, e que a eternidade os aguardava.Com o corpo colado no dela, disse que tinham um futuro. E ela sorriu junto com ele.



sábado, 29 de dezembro de 2007

Divagações de um dia cinza II

Escrevo meu livro em páginas de metal
Com palavras de areia e água.
Nas entrelinhas há neve
Marcada com ferro em brasa.

Quero ousar conhecer-me
Lançar-me no abismo que existe [e persiste]
Entre o que penso e o que sou,
Entre mim e mim.
Quero ousar viver.

Escrevo meu livro...
E quem, senão o vento, ousará lê-lo?
Em meio a dialetos de sonhos
Somente o intocável poderá decifrá-lo.


[Rabisco escrito há tempos]



[ Saí de óculos escuros. Buscava esconder os olhos e ficar apenas com o sorriso. O sorriso faceiro, até mesmo cínico, que não me trai na minha luta para esconder o que há por detrás. Mas meus olhos não,eles sempre me entregam. Saí de óculos escuros para que ninguém ouvisse o que meus olhos queriam gritar.Ainda assim, protegida pelas lentes escuras, fechei os olhos para que ninguém me visse. ]



~ No outro dia, porém,não precisei mais de artifícios.Sorrisos, amigos, abraços, beijos, fotos, saudade diminuída... Entrei no meu estado "esquecidamente despreocupada."


Foi bom te ver,pessoa.

Meu amor é cheio de defeitos, mas ainda assim, é amor verdadeiro.




quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Indicações

Imaíra, do http://depoisdoentardecer.blogspot.com passou para mim um questionário e umas indicações. Eis aqui, então:


Uma hora: Pôr-do-sol
Um astro: Sarah Shahi
Um móvel: Cama
Um líquido: Coca- Cola [ok, é vício.]
Uma pedra preciosa: Rubi
Uma árvore: Ipê roxo
Uma flor: Rosas vermelhas.
Uma cor: Depende do momento
Um animal: Tigre albino
Uma música: Taaaaantas, mas fico com Anywhere - Evanescence
Um livro: O Caçador de Pipas
Um lugar: Gramado - RS
Um verbo: Amar
Uma expressão: Seriamente não sei..
Um mês: Julho/Setembro
Um número: 5
Um instrumento musical: Violão.
Estação do ano: Inverno.
Um filme: The Lake House e Lost and Delirious











Os selos:
Os selos:
1. Basta indicar 5 blogs que você realmente ache interessantes, mesmo que eles já tenham sido escolhidos por outros blogueiros. 2. O objetivo é unir blogs que se comunicam e formam uma grande rede na blogosfera com textos interessantes com a intenção de compartilhar, criar e interagir com todos os blogueiros de plantão



"Todos temos blogs pelo fato de gostarmos de escrever. Por prazer, profissionalismo, ou qualquer motivo pessoal. E a maioria gosta de escrever para liberar algum sentimento profundo, seja ele bom ou ruim. Escreve para se encontrar, para analisar a situação depois de algum tempo, ou naquela mesma hora, e também por essa paixão de por tudo no papel. E estou chamando esses blogueiros de Escritores da própria liberdade. Escritores sim, mesmo que amadores, que escrevem suas emoções, que não guardam tudo para si. Que compartilham tudo com pessoas muitas vezes estranhas (entre as conhecidas)... Escritores que admiro muito, por vários motivos, que se destacam de um jeito único, para cada uma das pessoas que os conhecem. Blogueiros que publicam a sua liberdade de expressão."

E ainda, o selo " Eçe eu agarantiu."





Vou repassar o questionário e os selos a 5 outros amigos, ressaltando que alguns já foram indicados por outras pessoas, mas realmente merecem.

Camila Cutrim - http://letrasesilencio.blogspot.com
Felipe Silva - http://undsvrd.blogspot.com/
Raissa Santana - http://mulher-espuma.blogspot.com/
Verner Bezerra - http://vernerbezerra.blogspot.com/
[Hum, não sei seu nome ^^] http://disopia.blogspot.com/

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Divagações de um dia cinza






A peça mal ensaiada da minha vida começou. Fechem as cortinas, dêem as costas para o palco,peçam o dinheiro de volta - esse circo dos horrores não vale a pena ser visto. Do contrário, aguentem até a última nota desafinada.


* * *



E eu olhava para você do outro lado da janela. E teus olhos diziam o adeus que tua boca camuflava num até logo. Virei o rosto para dentro do meu desespero alucinado. E chorei.



* * *



A neve caía melancolicamente. O tapete branco se estendia até se confundir com o céu cinzento. Desejei imensamente estar lá fora...
Beberiquei meu chocolate quente, peguei meu jornal e esqueci da neve.




quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Mais uma dose, por favor.


Entrou no bar já um pouco trôpego, ainda sentindo os efeitos da bebedeira do dia anterior. Sentou-se no balcão, limpou o suor do rosto e sorriu nervosamente quando o barman se aproximou.

Tinha saído de casa na noite anterior decidido a encher a cara. Tinha pedido a maior e mais forte garrafa de rancor . "Uma maior do que a de solidão, que venho tomando há algumas noites, lembra?",tinha dito ao barman. Ainda trazia nas veias e na boca o gosto ácido e para se ver livre dele, precisava outra bebida.Contemplou a diversidade de garrafas e seus líquidos coloridos e pediu a mais forte.
O barman sugeriu uma garrafa de amor.
"Qual é ela?É essa rosa?"
"Não tenho como lhe dizer.A cor do amor se dá pelos olhos de quem vê.E só você é que pode identificar qual é a garrafa certa.Mas acho que essa rosa aí é a garrafa de satisfação."
"Ah, satisfação não... é muito vago.Mas, se você não sabe quais são as de amor, como vou poder pedir?"
"Você saberá qual é."

O homem olhou para as garrafas.Ela estava ali. Entre uma garrafa azul royal de indiferença e outra verde esmeralda de esperança desiludida, descansava uma garrafa com a cor mais linda que ele já tinha visto.Sorriu.
"Ah, vejo que você encontrou sua garrafa.Vejo pelo brilho dos olhos e pelo sorriso bobo.Todos ficam assim, é impressionante!"
"Sim... pode pegá-la pra mim?É aquela ali, a segunda da prateleira "
O barman entregou ao homem a garrafa.Ele a olhou num estado que beirava o torpor alucinógeno das drogas.Num estalo, lembrou de onde tinha visto aquela mesma cor e tremulamente, destampou o vidro.Um perfume mais que conhecido se espalhou dentro dele, numa mistura de saudade e a mais plena felicidade. Fechou a garrafa.
"Vai querer um copo?"
"Não... acho que não estou pronto ainda...é, não estou pronto.Entraria em coma, creio...mas até que isso não soa tão ruim.Mas, mesmo assim, acho que não mereço. Tem algo um pouco mais fraco?"
Ele acariciou a garrafa numa despedida doída e olhou para o líquido vermelho que lhe era oferecido.
"Paixão."

Dispensando o copo, tomou o vidro nas mãos e bebeu como se aquilo fosse o próprio elixir da vida.Era quente, vibrante, parecia pintar tudo de um vermelho vivo.Era realmente mais forte que o rancor,levemente doce e se espalhava misturando êxtase e dor. Sentiu que se afogava naquele oceano rubro mas não parou de beber até sentir a garrafa leve como suas pernas há muito já estavam.

Já na rua, saltando sobre poças e cantarolando baixo pegou uma foto polaroid da carteira e fitou os olhos mais lindos do mundo. Os olhos que deram cor àquela garrafa, a segunda da prateleira.Iria ter a melhor ressaca da vida.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

 
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