Sobre amor e fazendas

"Eu te disse que estava cansado de cerzir aquela matéria gasta no fundo de mim, exausto de recobrí-la às vezes de veludo, outras de cetim,purpurina ou seda - mas sabendo sempre que no fundo permanecia aquela pobre estopa desgastada."

Estive pensando sobre sentimentos, atitudes, sonhos, amor e tudo o mais que se pode encaixar nessa lista. Estive pensando sobre a validade disso tudo. Pensando sobre a linha universalmente ignorada que diz "até aqui é válido; até esse ponto crítico da beirada do precipício você pode andar sem temer cair; até aqui vale a pena." Pensando sobre a regra de três inversamente proporcional você X outra pessoa, composta por dedicação versus retorno, também conhecida por amor explodindo pelos poros versus capacidade de valorização/absorção, ou ainda alma posta na bandeja versus disposição para cuidar dessa alma entregue.

"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso."

Estive pensando sobre uma conversa que surgiu numa mesa de bar. Sobre pessoas e relacionamentos. Sobre como cada pessoa percorre o caminho pré e pós envolvimento sério.Ou "sério", whatever. Sobre a metáfora feita por uma amiga pra descrever isso. Sou do tipo de pessoa classificada como "que aprecia o caminho, mas costuma percorrer ele rápido. Aprecia mais criar o ninho, arrumar a casa". Usando a metáfora do dia, sou daquelas que : aprecia o caminho até a fazenda. Quando chega lá, arruma mesmo o lugar, como para passar o resto da vida. Cerca o terreno, levanta a casa, põe a mobília, planta as árvores, compra o gado e põe tudo pra funcionar.

"Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis."

Quando tudo tá em ordem na fazenda, a outra parte que dormiu na rede trançada à mão, tomou do leite ordenhado na madrugada por mim,usufruiu de tudo que o terreno pode dar, resolve se mudar - vai pra cidade. E então, eu demoro pra conseguir me desfazer da fazenda. Cada gota de suor marcada em cada tijolo da casa vira uma lágrima quente. Depois de muita luta, a fazenda foi demolida - nem posta à venda, demolida - e nada em mim está no seu devido lugar. Foi demolido junto.

"Repito sempre : sossega, sossega - o amor não é pro teu bico."


Estive pensando sobre as pessoas que nem ao menos se dão ao luxo de pensar sobre fazendas. Estive pensando sobre a ironia sádica disso tudo. Estive pensando em ser como uma dessas pessoas, que não pensam em fazendas e apenas apreciam o caminho, olhando pro lado, pro caso de ter um caminho mais atrativo.Estive pensando...
Mas eu não sou assim, não seria eu se fizesse isso, se agisse assim. Sou fã das fazendas, ainda que todas elas me tenham custado pedaços valiosos de sanidade, confiança e amor-próprio.
Estive pensando...

"Mas não é verdade que nunca tivesses suspeitado desta tarde e desta fome: não é verdade que por um momento sequer tivesses tentado fugir à tua trágica determinação: não é verdade que alguma vez tivesses sequer pensado numa possibilidade de salvação: sabias desde o começo da consistência ácida do que tecias, e no entanto persistias nela, como quem penetra num beco sem saída, caminhando pela estreita dimensão que sabias desde sempre intransponível: sim, tu sabias deste momento a construir-se desde o começo, e não fizeste nenhuma tentativa de evitá-lo: agora é necessário que enfrentes: embora talvez não soubesses do depois deste momento que se faz agora e portanto não possas estar preparado para o próximo momento: mas deste sabes: tudo se encaminhou para ele, e já não podes fazer mais nada, a não ser enfrentá-lo: tens ainda no peito a chama que te consumia nessas noites paradas de verão: tens ainda o que convencionaste chamar de força: tens ainda todas as partículas de tua determinação: tens ainda a tua integridade, embora saibas que ela pode te destruir: pois então toma dessa fibra que a si mesma se construiu em solidão sob teu olhar espantado e impassível: toma dessa fibra feita de algo tão denso quanto o ódio: toma do teu ódio: e agora enfrenta."


Todos os trechos em vermelho são dele, Caio Fernando Abreu.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

4 Comments:

Lu Amorim said...

Esta é a minha filha, minha cria, lendo a minha alma...

Grã said...

Mai,

Viver com intensidade é caro, é dificil, consome-nos a razão, consome-nos dias, custa-nos noites, arrasam-se fazendas, faz de nosso peito "estopas desgastadas", faz-nos cãos, sentimo-nos inuteis, gritamos, perdem-se os valiosos pedaços de confiança e de amor-próprio... mas vale a pena e não é opicional... vivemos como sabemos viver!
Escolhemos o caminho, sim, pelo cheiro... pelos "INSTINTOS".

BJ

Dri Viaro said...

Oi, passei pra conhecer o blog, e desejar boa semana
bjsss

aguardo sua visita ;)

Juliana CBF said...

Mai,

eu também amo fazendas, e elas custam tão caro! Seria melhor um "quartinho na cidade" de aluguel, custa menos e nos desfazemos mais rápido!
Voltei!
Dá uma passada no "Choses de La Vie"!
bjs

 
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