Era uma menina atípica.
Enquanto todos fugiam da chuva, ela caminhava no meio dela, com as mãos nos bolsos e pisando nas poças. Quando um raio cortava os céus, causando tremores nos demais, ela fixava os olhos quase negros nas nuvens à espreita do próximo risco luminoso. E vibrava. Preferia estar num programa furado com as suas cinco-melhores-companhias-de-todo-o-mundo do que em qualquer melhor-festa-de-todos-os-tempos sem elas.
Mas de tudo, de tudo mesmo, gostava mais de ouvir do que de falar. Principalmente quando o assunto era ela própria. Podia conversar sobre o que fosse e até mesmo discursar para uma platéia, mas quando era para soltar alguma palavra referente a ela própria, quase não saía.Não sabia como expressar em palavras seus sentimentos, gestos e olhares.Não sabia legendar seus sorrisos, dores ou alegrias.E quando a pressionavam, cobrando uma palavra dita, sentia uma pedra de gelo escorregando pela garganta e se alojando de um jeito nada confortável bem no meio do estômago. Virava então, uma menina estranhamente indiferente e distante, mascando chiclete de pedra brita e chutando latas invisíveis pelo caminho. Caminho feito com olhos baixos e duros. Por sorte, conhecia uma única pessoa que em momento algum lhe cobrava palavras. A pedra de gelo descongelava então.
Exatamente por tudo isso, assustou-se quando ouviu sua boca dizer a um certo ouvido "não deixa eu me apaixonar por ti, se não existir nenhuma chance". Só que a boca falou [muito provavelmente com a ajuda do álcool] e já era tarde pra voltar atrás.Ficou com o educado sorriso aliado ao manejo de cabeça como resposta e quis sumir de tanta vergonha. Mas manteve-se como se nada tivesse ocorrido, buscando apoio na pedra de gelo que não se formava. Passou a noite esperando.
Temia que já estivesse apaixonando. Era uma menina atípica.
Universo paralelo
Toscamente talhado por Mai Amorim às 19:21 8 outras dissonâncias Links para esta postagem
Não tenha pressa...
Ela parecia estar estalando os dedos [talvez estivesse].
Parecia me dar aquele sorriso lento...que mancha tudo, devora por partes...
Escreveste nessa data : 19/08/07
Dois dias depois, disseste "Acho que eu estou sonhando", com a boca pequena rosada e trêmula.
24/04/08
-Preciso falar com você.
25/04/08
- Acabou?
---------------------------
Deitada na cama eu tinha tanta coisa a escrever. Sentada na frente do computador, não veio nada. Chocada, descubro que um acidente irremediável aconteceu sobre todas as tuas cartas [menos umas 2 e aquelas do clip azul];quis sumir.Você irá me beliscar por causa disso, eu sei.
Processo irreversível? Não sei... "Você nunca sabe", dirá você ao ler isso bem aqui.
Ah, sabe... é sempre difícil. Não diga que "não foi suficiente", nunca mais me repita isso. A incompetência foi minha.
É, foi só o que saiu.
Música que não sai da cabeça: Poema, de Cazuza e Frejat, interpretada por Ney Matogrosso.
sábado, 26 de abril de 2008
Toscamente talhado por Mai Amorim às 12:05 3 outras dissonâncias Links para esta postagem
De sol ou do céu tão cerrado?

Sabe, olhando a chuva ainda há pouco eu parei.
Parei tudo e fui dar uma volta aqui dentro. Fazia um tempinho que eu não me visitava assim, decentemente. Como não tinha mais nada a fazer, sorri da minha própria desarrumação.
Coloquei diante de mim, em alto contraste, minhas grandes interrogações:
A história para sempre inacabada.
A história para sempre meio vivida.
A história para sempre aquela que devia ser aproveitada.
A história para sempre platônica.
Tocava Pintura - Elipê, no computador e eu encaixava as lembranças.Desnecessário, eu sei. Mas, fazer o quê? Quis ter uma bolsa vermelha [não amarela], para guardar cada uma das minhas histórias. Vermelha [a tal cor difícil de se entender] e forrada com aquela cor-de-saudade.
Num segundo - uma cidade do Sul, um certo mirante, um pôr-do-sol visto do carro, uma praia à noite com vinho barato.
Ah, certo, preciso parar de devaneios. Saio da chuva, ponho Mallu Magalhães.
Visita inútil. Continuo desarrumada.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Toscamente talhado por Mai Amorim às 19:52 4 outras dissonâncias Links para esta postagem
Marcadores: Cogumelo Atômico, Colorido, Platônico, Sonhos
Chá de tarde com o platonismo

Segurava frouxamente uma garrafa de cerveja e olhava o sol se pôr no horizonte, manchando o mar e o céu daquele laranja trêmulo. Apoiada na lateral do carro, ouviu o som dentro do veículo arranhar uma faixa e pular para a próxima, engolindo o comecinho. [E de repente eu me vi assim completamente seu]
Virou-se para aumentar o som e se afastou do veículo indo em direção à areia, abandonando as sandálias e a garrafa vazia. [Vi a minha força amarrada no seu passo]
Brincou um pouco com a areia fria sob os pés [Vi um grande amor gritar dentro de mim], olhando para o que ainda restava do sol [Você veio me contar dessa paixão inesperada por outra pessoa...]. Num fôlego, correu para as águas revoltas.
[Mas não tem revolta não] Mergulhou fundo e permaneceu lá o máximo que pôde.
[Eu só quero que você se encontre] Emergiu sentindo o sal queimando-lhe os pulmões.
[Ter saudade até que é bom] Tossiu e olhou para o céu, já sem sinal do sol.
[É melhor que caminhar vazio] Mergulhou novamente, dessa vez já voltando para o raso.
[A esperança é um dom que eu tenho em mim] Sentiu a areia sob os joelhos e cedeu. Deitou-se fechando os olhos.
Lembrou-se do toque sutil e ao mesmo tempo quente dos seus lábios em uma certa pele. [Não tem desespero não]
Sorriu quando percebeu que seu coração ainda pulsava com a lembrança [Você me ensinou milhões de coisas]
Só então abriu os olhos. Ia esperar pela lua. [Tenho um sonho em minhas mãos]
sábado, 19 de abril de 2008
Toscamente talhado por Mai Amorim às 23:23 6 outras dissonâncias Links para esta postagem
Marcadores: Platônico
Sentimentos lacrados

Só mais um pouco e então, tudo certo...Droga, escapou de novo. Espera, é só uma questão dela conseguir se concentrar. Droga, escapou de novo. Ela já estava vendo a pontinha verde brilhante... era uma das boas essa. Era não, É! Ainda está ali rondando. Apertou mais os olhos até sentir uma certa tontura e respirou fundo.
Pronto, pegou!
Rapidamente catou um frasquinho de vidro e envasou a coisa, antes que ela escorresse pelos dedos. Só então, analisou melhor: era verde, como as outras.E isso era bom, queria dizer que ainda era válida. Apertou o frasco no peito e correu.
O armário era de cedro, minuciosamente polido, brilhante. Ela passou os dedos pelo desenho da madeira e o abriu.Sem delongas, ajeitou o frasco numa das prateleiras e se afastou para examinar, orgulhosa, seu tesouro.
Cinco prateleiras, inúmeros frascos. Todos com um conteúdo verde, só variando no tom. A garota sorriu triunfante, lacrou o armário e foi-se embora.
Colecionava esperanças.
sábado, 12 de abril de 2008
Toscamente talhado por Mai Amorim às 20:45 6 outras dissonâncias Links para esta postagem
Marcadores: Colorido, Divagações, Sentimento