(*) Referências ao livro "O Sofá Estampado", Lygia Bojunga Nunes.
Se o tal do Inventor viesse até mim oferecendo a dita cuja banheira que vira mágoa em outra coisa, eu aceitaria na hora. Ajeitaria o artefato de cerâmica branca e lustrosa no meio do meu quarto, ligaria todos os fios, me ajeitaria dentro dele e daria aquele sorriso de triunfo. Só então, pararia pra pensar na pergunta crucial a ser respondida para que o tratamento desse certo. O Inventor olharia para mim e lançaria a questão: Onde dói a sua mágoa?
E aí, pronto! Acabou-se. Lá ia saber eu onde doía minha mágoa? Pediria um tempo pra pensar.
Andando pela casa vazia num dia de chuva, olharia pela janela o céu nublado. Mágoa. "Dói nos olhos."
O vento frio passaria por mim, trazendo tudo que um dia ele levou pra longe. Mágoa. "Dói na pele."
Sonharia aquele mesmo sonho de todas as noites atribuladas. Mágoa. "Dói na mente".
Olharia o céu de uma lua esplêndida. Promessa. "Sorri o peito"
Leria as mesmas poesias, cartas e bilhetes já tantas vezes lidos. Lembrança. "Acaricia o coração."
Ou seria mágoa? Chegaria à conclusão de que nunca seria capaz de separar uma coisa da outra.
Acabaria numa praia. Mar, violão, vinho barato.
A banheira continua lá.
Só mais um devaneio
Toscamente talhado por Mai Amorim às 18:31 4 outras dissonâncias Links para esta postagem
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Eu rabisco o sol...
Com a testa apoiada no vidro do carro e respiração pesada, ela observava o cinza perolado do céu. Estava numa cidade que não era a sua e, com olhos ávidos, tentava captar o máximo de imagens possíveis. Começou a encontrar um pouco de cada lugar em que já estivera naquela cidade nova; sorriu timidamente quando percebeu que o taxista a olhava pelo retrovisor e desviou o olhar para baixo. Depois, fechou os olhos.
Pensou que as pessoas podiam ser como essa cidade: podíamos encontrar fragmentos de alguém em um outro alguém. Seria bem mais fácil. Economizaríamos nas músicas dedicadas, por exemplo. Uma mesma música, que diz tudo o que você sempre quis dizer, poderia ser dedicada pra mais de uma pessoa sem problemas, pois não remeteria tão somente àquele alguém para quem foi dedicada a princípio. Caberia como uma luva, para qualquer outro alguém, pois os fragmentos estariam ali, dando suporte.
Não mais doeria sentir, de relance no meio da rua, o perfume que marcou um ex-amor. Se as pessoas fossem como aquela cidade, de alguma forma tortuosa sentiríamos o perfume e só ficaríamos com a vaga sensação de reconhecimento.Um dia, acabaríamos por associar o cheiro a uma outra pessoa.
Tampouco seríamos capazes de esquecer aquele sorriso perfeito de um amigo que por algum motivo não vemos mais. Em algum centímetro do sorriso do novo amigo presente, existiria um fragmento do tal sorriso perfeito.
Abriu os olhos. Olhou para o próprio reflexo na janela e fitou o cordão que trazia no pescoço.Reconheceu os acordes inicias da música que estava para vir na rádio do táxi e abriu a janela, para sentir os pingos de chuva, ignorando o olhar de censura do morotista.Lembrou-se da cada uma das SUAS pessoas. Assim, sem interseções. [Fecha os olhos, roda o mundo, deixa a vida te levar/ Eu me prometo um dia te encontrar ]
Que bom que as pessoas não são como aquela cidade.
~ És parte ainda do que me faz forte / Pra ser honesto, só um pouquinho infeliz / Mas tudo bem...tudo bem. ~
terça-feira, 18 de março de 2008
Toscamente talhado por Mai Amorim às 18:32 3 outras dissonâncias Links para esta postagem
Segura minha mão
Dizendo "assim tá tudo bem"
Vi o seu casaco, abrindo os braços, me acenando
Como se não existisse, mais ninguém...
Tudo pode parecer um caos
Pois quando eu ando sem destino
Só você me traz
De volta segurando a minha mão
E agora pode me levar no colo
Feito uma criança, num filme de assombração
Não posso encostar os pés no chão"
Luxúria - Pés no Chão
Virgem: É o 6º signo do zodíaco, regido por Mercúrio.É um signo de Terra, cujo significado é o de servir.Virgem só se sente bem fazendo algo pelos outros.
Sua maior recompensa é o reconhecimento de que está fazendo algo pelos demais. Às vezes são duros demais com eles próprios, porque não admitem que falhem.
Acho que essa é a característica mais peculiar minha e talvez a única da descrição de virgem que se encaixa no meu perfil.Influenciada pelos astros ou não, sou excessivamente altruísta.Idiota?Talvez.
Não consigo lidar direito com o fato de não ser reconhecida como alguém que está presente e muito menos com o fato de que certas coisas estão fora de minha alçada.Infantil?Talvez.
Impossível não me martirizar por não conseguir amenizar a dor de alguém que eu amo.Sentir-se inútil ou incapaz é absurdamente doloroso para qualquer virginiano.Ridículo? Com toda a certeza. Mas isso sou eu.
Uma semana de particular sensação de incapacidade se arrastou por mim, arrancando algumas lágrimas.E a sensação de que falhei fica cutucando meu juízo.E nada me faz enxergar a minha impossibilidade de quebrar um pouco as situações ruins pelas quais passam certas pessoas como outra coisa senão uma grande falha.Uma falta minha, enquanto "pessoa com que se pode contar".
Passei uma ligação inteira com medo de ouvir a voz do outro lado da linha dizer "você não me conhece". Por sorte, não ouvi. Vindo de algumas pessoas, isso quebra minhas duas pernas e ainda me chuta as costelas. Porque "a gente só conhece bem as coisas que cativou".
Terminei uma conversa no msn com uma vontade imensa de pegar um carro e dirigir por doze horas infernais para dar um abraço em outra pessoa e dizer "eu estou aqui".
E só o que fica, afinal, é uma vaga incerteza. Uma névoa de dúvidas com uma pitada de dor, que me faz sentir uma idiota por viver as coisas dessa forma.
quarta-feira, 5 de março de 2008
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