Fluxos


~ As pessoas se afastam, amigos deixam de ser amigos, companhias de todo o tempo viram colegas que passam e abanam as mãos. Dificilmente um afastamento entre as pessoas ocorre de modo unilateral. Mais dificilmente ainda, alguém admite isso - o erro sempre é do outro, foi sempre o outro que deixou pra trás, o outro que abandonou, o outro que foi viver coisas mais interessantes e deixou de avisar pra onde ia. Dificilmente paramos para pensar o quanto estamos implicados nessa inequação torta, o quanto também deixamos de lado e vamos viver campos mais verdejantes... Seria tão mais justo se ambas as partes assumissem a responsabilidade de não mais andarem de mãos dadas em amizade por aí. Quem sabe assim, as DUAS partes aprendessem a perdoar, a esquecer, a recomeçar e a reconstruir o que um dia foi tão significativo, mesmo que seja para dar uma nova significação, mas ainda assim de mãos dadas, e não apenas uma lembrança nos álbuns amarelecidos da nossa memória traidora. Sinto falta e sei que não haverá retorno.~


E um dia, você percebe que cresceu.

E lembra que um dia - antes, bem antes, quando a inocência infatil ainda corria solta pela nossa pele e ecoava nos nossos sorrisos - sempre sonhou com esse tão esperado tempo, o tempo de crescer. E se dá conta de que esse tempo chegou de leve, quase disfarçado, afundando as têmporas, marcando o canto dos olhos, modificando os gostos e mudando os rumos da nossa mente e do nosso coração.

Se dá conta, em um espanto, que tomou as decisões mais importantes da sua vida. E, como cresceu, as tomou sozinho, dando a cara a tapa, de peito aberto ao vento. Percebe que o quanto o peso das consequências de suas escolhas pode lhe derrubar, e se lembra tanto do quanto foi forte até agora quanto das vezes em que fraquejou perante o crivo do amadurecimento.

Quase que automaticamente, talvez em um grito desesperado do instinto de sobrevivência, vai se afastando, às vezes sem perceber, de tudo aquilo que um dia te puxou pra baixo, de tudo aquilo que a tua consciência mais clarificada sabe não te auxiliar em nada na tua estrada de crescimento - todo o proveito que ela podia tirar, ela já o fez e agora é hora de seguir em frente.

Um dia você percebe que aquilo que julgava ser o mais essencial da vida, agora não parece isso tudo e que agora existem outras "coisas mais importantes que tudo". Percebe também que isso pode mudar, mais cedo ou mais tarde. Ou não. E então se dá conta que independente do que seja, hoje você tem toda uma construção interior, de vida mesmo,suficiente para que você tropece, reconheça, levante, acerte, reconheça, viva, reconheça, cresça...

Reconhece que a pessoa que você escolheu para dividir os melhores e piores momentos da sua vida é parte integrante desse processo. Percebe que atribuiu para si uma responsabilidade enorme, e sabe que só dará conta dela porque cresceu.

Começa a sentir falta da sensação de querer crescer, da sensação de não estar pronto, de ser alguém que é acolhido, e não que acolhe. Mas, também em um espanto, se dá conta que crescer também é saber fazer essa dança. Vê que dentro de si há espaço para tudo. Crescer é saber equilibrar.





Te amo, Bruna.

terça-feira, 27 de março de 2012

1 Comment:

ImaGINE said...

Mai, concordo com tudo que disseste, mesmo.
A gente tem mania de se livrar das responsabilidades na construção de uma relação.
Espero não ser alguém para tu poder chamar de ex-amigo.
Te amo e amo tudo que a gente viveu e apesar da distância, culpa nossa, o carinho se preserva.
Fica bem minha irmã.
Vou tentar sair dessa inércia.
beijo

 
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