Quimera





O que é dar a mão a alguém que pertence a um outro alguém?

Não me refiro tão somente a estar com alguém que tem um compromisso firmado, mas sim que tem a alma presa, o carinho direcionado, os sentimentos acorrentados, uma aliança invisível na mão esquerda.O que é se dar a alguém assim? A incerteza da reciprocidade machuca, e muito, os corações dos desavisados e idiotas que teimam em esperar que o tempo corroa as amarras.Claro, não corrói.

Altruísmo maldito.

Bem que podia dar uma crise de egoísmo e racionalidade de vez em quando, faz bem,tudo desgasta menos. Se dar a alguém assim é ter a certeza de que você é tudo que essa pessoa sempre quis e também ter a absoluta convicção de que se ela pudesse pegar todo esse leque de coisas perfeitas que você é, arrancar e botar na outra tal pessoa que está na ponta oposta da corrente, ela botaria. Sorrindo.Em êxtase por unir todas as coisas que ela queria naquela pessoa que nunca tinha oferecido nada disso. Botaria,em êxtase,sorrindo. Mas você deixa de ser tudo? Não.

Parabéns, você ama e não é amado. Típico.





"(...)somos como madressilva quando se enrola à volta do ramo da aveleira: uma vez a ela ligada e presa, ambas podem durar juntas eternamente, mas, se as querem separar, a madessilva morre em pouco tempo e o mesmo sucede à aveleira. Tal é o nosso caso: nem vós sem mim, nem eu sem vós!"

Trecho do livro Tristão & Isolda

terça-feira, 18 de novembro de 2008

E alguém sabe?

Não,não venha com esse abraço vago e frio. Me ouça, eu quero falar, só falar. Passa pra cá essa garrafa; não.não o copo, pra quê copo? Tem gargalo não é? Não me olha com essa preocupação cínica de quem não tá nem aí e finge estar! Ouve.

Sabe? É esse não sentir nada. É esse sentir tudo. É esse vazio cheio de... sei lá o quê. É, é... vazio cheio... cala a boca, ouve! É como se eu subisse uma montanha, chegasse ao topo e olhasse lá pra baixo. Daí, depois de toda a luta pra subir, eu sinto uma puta vontade de pular, entende? Um anseio,um desejo, uma necessidade. Outra, outra. Garrafa, cara, outra garrafa. Anda, dá logo aqui.

É da mesma de ainda há pouco? Parece mais fraca. Não, não é porque eu já tô bêbada, mas que idiotice.Sim, deixa eu falar, levanta não. Eu sei, eu sei, você nem me conhece, e daí? Você por acaso tem algo mais interessante pra fazer do que ficar ouvindo uma desconhecida proferindo filosofias etílicas num balcão sujo de um bar nojento? Hum, sabia que não.

Então, é estranho isso de se envolver.

Não, bicho, não tô chorando, tá louco?

Sim, quero outra garrafa. Suficiente? Nunca é suficiente, filho. Ah, criança, você tem muito o que aprender dessa vida de cão.

Amor? Ah, claro que acredito. Por qual outro motivo eu estaria aqui, nesse bar, bebendo, falando com um completo estranho? Amor, querido, amor! O topo da tal montanha, mas também o que tem lá embaixo me puxando. As pedras que formam a subida, mas também as árvores que formam o tapete verde no qual eu quero pular.Ai, cuidado com essa cinza desse cigarro! Põe a mão pra lá, deixa eu deitar meu rosto no teu braço. Ah, cara...

Ok, encheu de mim já? Meu nome? Pra quê, cara? Olha, eu vou indo, pega aqui esse dinheiro, tô pagando a bebida. Você tá ainda abrindo o caminho, ainda nem olhou a base da montanha, tá cortando o mato em volta, se furando nos espinhos e bebendo a água que se acumula nas folhas depois da madrugada. Sobrevivendo. Quando chegar na montanha, você vai aprender a viver. Como eu sei que você já não chegou lá? Ora, se por acaso tivesse, não ficaria me ouvindo com tal sede de saber.Ia achar que já sabe exatamente como trilhar o caminho. Que engano, meu Deus. E alguém sabe?

Não esqueça de se jogar se der vontade.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

 
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