Bem... Tinham me dito que não era pra postar esse conto porque ele tinha ficado realmente ruim. Que ficou ruim, é bem verdade. Mas o instinto dissonante aqui falou mais alto. Eis o dito cujo, que surgiu do nada, entre duas aulas chatas .^^
- Duas taças de vinho, por favor.
- Só uma. Eu quero um Martini.
- Mas onde já se viu jantar romântico com Martini?
- Quem foi que disse que jantares românticos devem ser regados a vinho? Eu quero um Martini. E quem disse que isso é um jantar romântico?
- Tá certo! Uma taça de vinho e um Martini.
- Ele já ouviu, não é surdo.
[O garçom olha para os dois e pergunta pela comida, impaciente. "Céus... por quê raios eu vim atender essa mesa? " ]
- Nós vamos ficar com a sugestão da casa e...
- Eu quero filé com fritas.
- FILÉ COM FRITAS? TÁ LOUCA?
- Não grita... que coisa!O que tem demais com meu filé com fritas?Eu gosto, você não sabia?E eu estou com vontade de filé com fritas. E não de "Filé de peixe ao molho de crustáceo com toque especial da casa", a tal sugestão aí que você quer.
- Sim, eu sabia que você gostava... bom,na verdade não. Mas isso não importa!Será que podemos entrar em consenso?
-Eu não sabia que aderir ao que você determina é sinônimo de consenso.
- Mas a gente sempre decidia tudo juntos e você nunca reclamou. Por que isso agora?
- Correção: você decidia.
[Pigarro do garçom, os dois param a discussão]
- Sugestão da casa pra mim e filé com fritas ao ponto pra ela.
- Mal-passado. O filé é mal-passado. E posso saber o por quê desse teu tom?
- Nada, absolutamente nada.Pode me explicar o que foi isso?
- Isso o quê?
-ISSO!
- Continuo na mesma.
- Que história é essa de ficar discordando de mim? É pra me provocar é? É pra fazer ceninha, teatro?
- Discordando?Provocar?Ceninha? TEATRO?Não vi nada disso aqui.Você está fazendo drama.
-Não sabia que você gostava de Martini.
- Agora já sabe.Anota, pra não esquecer.
- Dá pra parar de agir assim?
[ Ela o ignora, pega um espelho e retoca o batom]
- Esse negócio de "ser eu mesma" realmente faz efeito! Me sinto tão bem!
- AHHHHH! Eu sabia! Sabia que tinha o dedo da tua irmã no meio disso! ela que te falou isso né?
- Não viaja! Minha irmã não tem nada a ver com isso.
- Quem é você e o que fez com a minha mulher?
- Deixe de histerismo, homem! Sou eu, tua mulher. Na verdade, a mulher que você nunca quis enxergar, que você nunca deixou sequer respirar.Eu, eu mesma, bem aqui.
[Silêncio sepulcral]
- Você sempre teve esse sinal aí?
- Claro, né? Você acha o quê? Que eu botava pra dormir?
- Ei...
- Oi.
- Acho que descobri que te amo.
- Haha! Não adianta, a conta eu não pago!
- Não... é sério. Acho que te amo...
-Ihhh.... olha, benhê.. Acho que com essa história toda... descobri que não te amo. "Eu mesma" não te ama.
-Mas...
- Olha, tenho que ir. Tá na hora da novela. A gente se vê em casa, tá amor?Ah, outra coisa: não gosto desse seu corte de cabelo, nem desse restaurante. Até mais tarde!
-Mas...
- Tchau, amor!
Companhia, música e discórdia
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Marcadores: Dissonâncias
Há um incêndio sob a chuva rala
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Há dias, um calor infernal vem me assolando. Odeio calor.Não que alguém goste, naturalmente. Hoje não estava diferente, até que você foi embora. Na verdade, você nem mesmo chegou.Isso foi o que doeu mais. Encostei num gradeado, olhei pra cima, pra baixo, pros lados... pra qualquer lugar que não fosse aquele em onde você [não] estava. Daí, olhei para o céu. Uma nuvem escura havia se formado. Ameaçava chover. Em meio aquele calor infernal, ameaçava chover. Não pude deixar de soltar um sorriso doído, torto,triste.Um sorriso que tem ganhado espaço aqui nesses lábios. Choviscou.Mas havia [e ainda há] um incêncio sob essa chuva rala.Abaixei a cabeça e chorei.
~ Um gosto estranho, ácido, se espalhou pela sua boca. Soltou a fumaça lentamente, observando o vento frio desfazê-la. Olhou para o cigarro desajeitadamente seguro entre os dedos trêmulos. Aquilo não era exatamente bom. Não tinha o efeito calmante esperado, nem um gosto que se podia classificar como agradável. Ainda assim, se alguma forma tortuosa aquilo a estava preenchendo. Jogou o cigarro no chão e observou até a chama apagar.
Tinha faltado energia, a lua mergulhava tudo numa claridade difusa,azulada. Sentiu uma lágrima quente percorrer-lhe o rosto. Enxugou-a com o dedo e uma dor fina lembrou-lhe que ele estava cortado. Fechou os olhos e apertou a mão. O dedo começou a sangrar, a dor física chegava em ondas e sobrepujava a emocional [ ou pelo menos ela achava que sim]. Inconscientemente, procurou o pulso também cortado e apertou, até sentir o conforto íntimo e estranho que e a dor lhe causava.
Abriu os olhos. Seu pulso latejava, sua mão, assim como o chão, estava tingida de sangue. Acendeu outro cigarro. Não ficou mais calma, mas estava preenchida. Preenchida de uma fumaça de dor, raiva, tristeza, angústia. Preenchida de si mesma.
O choro ultrapassou o peito e irrompeu pela garganta. Preenchida de lágrimas.
domingo, 21 de outubro de 2007
Toscamente talhado por Mai Amorim às 21:16 8 outras dissonâncias Links para esta postagem
O gosto que fica,o toque que marca e as mãos que se unem

Ela estava lá. Olhou para o lado, viu o sol refletido na água, fechou os olhos. O vento soprava forte, trazendo consigo o cheiro inebriante da pessoa que estava ao lado.Sorriu. O cheiro lhe dava a certeza de que a pessoa continuava ali.Sentiu um toque leve puxar-lhe o rosto e se virou. Deparou-se com aquele olhar que naquela tarde em especial, assumira um tom esverdeado lindo, magnífico e que nunca antes tinha feito festa por aquelas retinas [ ou pelo menos ela queria acreditar naquilo]. "Tudo bem?,perguntou aquela voz. "Tudo", respondeu.
Minutos antes [ou foram horas? tempo, tempo... o que é o tempo quando você fecha os olhos e se perde em si, no outro, num beijo, num toque, num cheiro?], aquele mesmo toque no rosto a tinha puxado. Dessa vez para mais perto; para junto na verdade.Os lábios se uniram e a sintonia foi imediata. Precisavam-se, buscavam-se, completavam-se... amavam-se. Ali, os sentimentos falados eram agora traduzidos.
Mais anteriormente ainda, ela ouvira "Isso tem um gosto estranho...Tipo de coisa errada." Sorriu e pegou a cerveja do gosto estranho daquelas outras mãos.Beijaram-se. Lá em cima, sob o vento que trazia o cheiro, o sol que punha o tom esverdeado e a lagoa que o refletia, o gosto de coisa errada foi tomando outras cores.
Era um gosto doce, entorpecente.
Era um gosto único, envolvente.
Era o gosto da tua boca. Era o gosto do amor.
terça-feira, 16 de outubro de 2007
Toscamente talhado por Mai Amorim às 18:18 9 outras dissonâncias Links para esta postagem
Marcadores: Amor
Na vertigem da ausência

"Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia", nos diz o filósofo alemão Nietzsche. Teríamos nós uma gana insaciável por uma "verdadeira companhia"? Até que ponto o fato de sermos seres sociais nos impulsiona para o convívio?
Vivemos cercados pela presença humana e isso ninguém pode negar. Porém, o sentimento de solidão, de vazio, de vacuidade, vai além dos fatores externos, além do físico - adentra o mundo interior, no qual o imaterial pesa muito mais do que o material e o concreto nem sempre supre as necessidades do abstrato.
O sentimento ( ou a ausência dele, porque isso também gera solidão) se consolida dentro de nós, independentemente do exterior cheio de possíveis soluções, opções e saídas. A grande questão é que nem sempre o que buscamos está ali entre o que é mostrado. E então, quando não mais enxergamos outras soluções (paleativas ou não), ficamos perdidos.
É disso ,basicamente, que se constitui a solidão - a ausência de caminhos. Estar sozinho nem sempre é sinônimo de estar solitário. Uma vez que nos sintamos à vontade com o fato de estarmos sozinhos, o sentimento de vazio não se constituirá, pois não estaremos perdidos, e sim conscientes no nosso necessário isolamento.
O que se observa, portanto, é que estamos de certa forma aprisionados à nossa mente. A análise das situações consciente ou inconscientemente cabe à nós, à nossa capacidade de absorção e compreensão dos fatos. Solidão é, por excelência, sentimento. E sentimentos são intrínsecos.
~ Tocava funk na sala, minha cabeça doía, meu pensamento estava em você. E não, não estva sozinha. Sorri. Precisava terminar a redação de Maura, precisa estudar para Alex, precisava parar de lembrar do seu sorriso, precisava parar de desejar certas coisas.Precisava dormir.Precisava te ver.Precisava parar de pensar em ti. Precisava pensar em ti...
~ Tenho outras viagens a fazer.
~ E tenho que parar com essa mania de escrever "por excelência" ¬¬'
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
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Show Ana Carolina - Tolerância (Canecão 22/07/2007)
"É que o amor é soberano
E supera todo engano
Sem jamais perder
O elo
E é por isso que te espero
E já sinto a mesma coisa em seu olhar
Deixa eu te levar
Não há razão e nem motivo
Pra explicar
Que eu te completo
E que você vai me bastar, eu sei"
Ou ainda, lembrando uma outra música de igual maestria :
"Aqui
Eu nunca disse que iria ser
A pessoa certa pra você
Mas sou eu quem te adora
(...)
Eu não consigo esconder
Certo ou errado, eu quero ter você
Ei, você sabe que eu não sei jogar
Não é meu dom representar
Não dá pra disfarçar
Eu tento aparentar frieza mas não dá
É como uma represa pronta pra jorrar
Querendo iluminar
A estrada, a casa, o quarto onde você está
Não dá pra ocultar
Algo preso quer sair do meu olhar
Atravessar montanhas e te alcançar
Tocar o seu olhar
Te fazer me enxergar e se enxergar em mim"
Ana Carolina
Sabe aqueles momentos em que você pára e olha para o caminho trilhado e não sabe mais como chegou até ali?Ou então quando olha depois para frente e, num assombro, percebe que não sabe mais como prosseguir? Pois é.Desconfortável, não? Daí você refaz todos os passos, relembra todos os gestos, todos os sentimentos, tentando [inutilmente] saber como, por que e o quê está fazendo bem ali, parado.Paralisado, na verdade.
Bola de neve - é o que melhor descreve.
Mas não seriam os sentimentos, por excelência, grandes bolas de neve?Então, o que mais podemos esperar disso, já que isso é justamente, SENTIMENTO? [dos mais fortes, diga-se de passagem]
Estamos construindo barreirinhas de neve na descida da montanha. Mas o que vem lá de cima não é pura neve?Então,pra que mais servem nossas barreiras, senão apenas para somar-se à avalanche?
Enfim, sinto que devo recomeçar a andar.
"Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo." {Cecília Meireles}
domingo, 7 de outubro de 2007
Toscamente talhado por Mai Amorim às 11:50 7 outras dissonâncias
Marcadores: Neve, Sentimento

Ela estava encostada na parede, pernas cruzadas, mãos apertadas. Fechada em si. O olhar vago denunciava uma certa tristeza que o sorriso nos lábios tentava em vão esconder.A pessoa à sua frente falava sobre algo infinitamente desimportante, pelo menos para aquele exato momento. Ela fingia prestar atenção. Na verdade, queria era saber o que estava se passando por detrás daqueles olhos e ouvir um pouco daquela voz sempre confortante.Tentava fazer com que seus olhares se encontrassem, mas eles apenas se cruzavam, e isso a estava deixando irritada.Suspirou e deixou a cabeça pender pro lado. Se ocupou em observar as moscas q voavam tropegamente ali perto.
Daí se voltou para a avalanche de coisas que estavam rolando dentro de sua mente. Percebeu que aquilo não era bem tristeza. Mas, o que afinal era aquilo? E por que raios tinha tanta mosca voando por ali? E pra que fim realmente útil, ela precisava saber sobre Lênin, Stalin, revolução de Outubro? E o que ela ia fazer agora disso tudo? Os olhares se encontraram, todo o resto não fazia mais a menor diferença.
Mais tarde, encostada em uma outra parede, agora sem a voz reconfortante, ela sorria.É... talvez tenha começado a enxergar no escuro. Queria ficar sozinha, mas ela estava numa escola, no horário de saída do ensino fundamental.Pouco provável conseguir um canto sossegado. Mas isso não importava, ela começava a enxergar [ ou pelo menos acreditava que sim].
Ligou o botão do MUDO para o exterior, colocou o mp4 no ouvido no volume máximo. Fechou os olhos.Um guri quase a acerta com uma bola, outro quase arranca seu pé num tropeção.Mas nada disso importava, a balbúrdia externa não a afetava. O volume de sua vida estava no máximo, e ela começava a enxergar.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
Toscamente talhado por Mai Amorim às 20:30 8 outras dissonâncias Links para esta postagem