Alvorada

Puxou o cinto que estava enrolado pressionando seu peito e aí aconteceu: aquele perfume que ficara preso no tecido preto do artefato de segurança do carro a atingiu como um golpe de zarabatana.Pequenos dardos encharcados daquele cheiro adentraram a pele e espalharam o doce veneno pela mente, paralisando músculos,deixando a boca seca e acelerando o ritmo cardíaco.O sinal ficou verde, ela voltou pra realidade. Ou quase.
Mudou a estação no rádio, passou a respirar em movimentos rápidos e curtos, tentando absvorver o mínimo possível daquele ar que intoxicava e seduzia.Chegando em casa, apoiou a cabeça no volante, fechou os olhos, respirou fundo e pensou "o que você fez com meu juízo?". Desejou nunca mais respirar outro ar senão aquele.



"Dá um certo trabalho decodificar todas as emoções contraditórias, confusas, somá-las, diminuí-las e tirar essa síntese numa palavra só, esta: gosto." Caio Fernando Abreu


~ O calor era intenso, sufocante. Na esquina, vestindo um sobretudo pesado e botas de borracha, a Contradição pôs as mãos no bolso. Tendo decidido parar de fumar, puxou um maço ainda fechado e tirou um cigarro, retomando o passo e indo pra o bar mais degradante de todo o bairro. Não queria ser notada, mas sentou na primeira mesa.

Um pouco longe dali, vestindo uma saia curta, blusa de alça e segurando um guarda-chuvas enorme, a Incerteza pegou um táxi depois de saltar de um ônibus que iria pra algum lugar que ela já não sabia mais se queria ir. Irritou o motorista mudando umas duas ou três vezes de rota até que se calou. Desceu numa esquina, virou pra esquerda, voltou, foi pra frente, parou de novo.Respirou fundo e foi indo na direção de um bar sujo e feio que tinha ali.

A Contradição já fumara metade da carteira de cigarros quando viu aquela garota pequena entrando no bar. Parecia uma peça fora do quebra-cabeça, uma nota destoante da partitura...tudo menos alguém que pertencesse àquele lugar. A Contradição balançou a cabeça irritada, odiava esses tipinhos. Por isso mesmo, ficou vigiando cada movimento da outra garota.

Quase sentada no banco alto do balcão, com um pé balançando no ar e o outro tocando o chão apontando pro outro lado, a Incerteza tomou duas cervejas, umas doses de Campari e umas de vodca barata. Sentia a cabeça pesar um pouco e olhou pros lados.Sua atenção recaiu sobre a garota de sobretudo quase na entrada do bar.Viu quando ela fez sinal com a mão, mas demorou pra levantar-se completamente do banco.

A mente disse que era pra ela ir embora, mas a mão fez sinal pra garota sentada torta no banco do balcão. A Contradição apagou o cigarro morrendo de vontade de tragá-lo de uma só vez, cumprimentou a outra garota com um aperto de mão morrendo de vontade de beijá-la no rosto ou pelo menos abraçá-la.

Quase só respondendo às atitudes da tal garota de sobretudo, a Incerteza apertou-lhe a mão e sentou na diagonal, nem de frente nem de lado. Cruzou as pernas na defensiva, pois não sabia qual era a sua real intenção aceitando sentar-se com aquela estranha. Quando viu a mão da outra estendida sobre a mesa, sem saber o que queria dizer, a agarrou. Só então ergueu os olhos e a encarou.

Querendo olhar pros olhos, a Contradição baixou a visão pras pernas que tinham sido expostas à sua diagonal. Desconcertada quis jogar-se pra defensiva, mas inclinou o corpo pra frente e a mão foi pra cima da mesa. Sentiu o toque da outra garota e ergueu os olhos.

Deixando a visão escapar por cima do ombro da garota à sua frente, a Incerteza encarou uma outra pessoa. De calça jeans e blusa laranja,bebendo vinho e exalando charme que só podia ser ariano, ela só deu uma única olhada pra Incerteza,virando as costas para jogar sinuca, mas mantendo-se à vista. Chamava-se Utopia.

Na tentativa de perder-se naqueles olhos lindos, a Contradição deixou-se distrair por uma outra garota encostada no balcão.Roupa de couro colada, seios fartos e boca vermelha bebendo whisky, ela fitava a Contradição com olhos felinos atentos, olhos de caçadora. Chamava-se Luxúria.



Estão fadadas uma à outra. ~

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Intervalos

Quero que o intervalo entre olhar teus olhos e beijar tua boca seja te embalar no colo.

Lacrei teu perfume num envelope de papel e pus debaixo do meu travesseiro.
Colei teu sorriso no teto do meu quarto, logo acima da minha cama.
Sintonizei tua voz no rádio que ouço enquanto banho.

Quero que me ligues na madrugada quando um sonho ruim te afligir.



Eu sou um parênteses em aberto.
Meus sentimentos, reticências trêmulas:
Incertas mas existentes.
Minha vida, uma metáfora transfigurada,ode incompleta.



~ Desde que começaram o namoro, ambos usavam uma aliança de prata que em hipótese alguma era retirada. Ele agora dormia e ela, trêmula, observava a marca clara no dedo dele, causada pelo uso contínuo da aliança que não estava ali.No outro dia, ele saiu enquanto ela ainda dormia.
Sentada na cama, chorou horas fio. Recolheu todas as cartas, ursos de pelúcia e as fotos que estavam no mural perto da cama.Mudou os móveis de lugar, almoçou sorvete com brigadeiro de panela, pegou as poucas roupas dele que estavam lá e pôs numa maleta.
No início da noite, ouviu a chave virando na porta do pequeno apartamento. Ela não viu o buquê de rosas brancas, cega de raiva. Avançou sobre ele, esmurrou-lhe o peito, xingou, esbofeteou, mostrou a aliança que ainda trazia no dedo,gritou horrores, jogou a maleta com as roupas em cima dele e por fim, desabou no chão chorando.
Ele juntou o buquê que caíra no chão, limpou o canto da boca que sangrava, puxou um cordão de dentro da blusa. A aliança de prata estava lá, com uma inscrição da data do primeiro encontro deles acompanhado de um "pra sempre dela",que ele tinha mandado fazer no dia anterior. Pegou uma caixinha de dentro do bolso da calça, ajoelhou-se e a pediu em casamento. ~


sábado, 2 de agosto de 2008

 
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