- O que foi?
- Nada.
- É pra eu acreditar nisso?
- Hum, não.
(...)
- Melhora, tá?
- Acho que não vou.
- Me diz o que foi.
- Não sei.
Quando eu vi teu telefone no aparelhinho de bina, sorri porque tinha uma série de coisas que eu iria te falar. Mas tua voz calou todo o repertório, trouxe uma nuvem cinza e até agora está ressoando na minha mente.
Talvez se você admitisse algumas coisas.
Talvez se você parasse com algumas coisas.
Talvez se você tentasse algumas coisas.
Talvez se você matasse algumas coisas.
Mas, ah... eu não consigo enxergar por detrás da tua inconstância. Não consigo enxergar por detrás dos teus olhos negros tristes. Não sei o que se passa, nunca sei. Por um tempo eu até acreditei que sabia, mas depois eu vi que estava enganada.
E já como eu não sei, não tinha o direito de ter escrito esses "talvezes" aí de cima, me desculpe por isso.E me desculpe também por não te explicar quando você vier me perguntar sobre cada um. Mas é tudo tão alheio e ao mesmo tempo tão íntimo. É tudo tão doce e ao mesmo tempo tão amargo. É tudo tão euvocê e tão eu você...
No fim das contas, eu só queria te abraçar forte e roubar sua dor.
Mas às vezes você oscila, e não me sente aqui.
[ Ouvindo: Broken - Amy Lee feat. Seether ]
Migalhas
Toscamente talhado por Mai Amorim às 17:40 4 outras dissonâncias Links para esta postagem
Refrações

Andava com as mãos dentro dos bolsos, os ombros encolhidos, expressão confusa no rosto - não fazia idéia de onde estava. Parou e ficou vendo a própria respiração condensar-se, cruzando os braços para tentar afastar o frio. Foi aí que ouviu um barulho, um leve ruído de coisas se chocando.Apurou os ouvidos e olhou em volta.
À sua esquerda viu um homem sentado. Trazia nas mãos um objeto cilíndrico que ele olhava como uma luneta. O barulho vinha dele, de cada vez que o tal homem girava o artefato nas mãos, sem tirá-lo do olho. Chegando mais perto, ia perguntar o que era aquilo e onde estava quando uma voz feminina lhe falou.
"É um caleidoscópio."
Sobressaltado com a súbita aparição, abriu a boca pra falar mas não conseguiu.
"Um dia, ele olhou no caleidoscópio a imagem mais bonita de toda a sua vida. Emocionado, tremeu as mãos. A imagem se desfez em outra, diante dos seus olhos.Agora ele está aí... em busca da tal imagem."
Ele olhou para o homem que estava sentado:o cansaço pesava-lhe nas costas e nos vincos do rosto. Voltou a atenção para o caleidoscópio. Percebeu uma minúscula fenda na madeira, por onde escapavam pequenos fragmentos coloridos de alguma coisa.
"Sim, o caleidoscópio tem uma fenda.Mas ele não percebeu ainda, pois não o tira dos olhos. E sim, ele nunca vai reencontrar a imagem. O caleidoscópio está incompleto.Mas ele não percebe. Não enxerga a diferença nos padrões das imagens. Não percebe a ausência de alguns tons. Só tem na mente aquele único quadro.Idéias fixas...às vezes são um baita problema."
Ele ajoelhou-se ao lado do homem e estendeu a mão para tocar-lhe o ombro.
"Você não pode fazer nada a respeito. Ele nem ao menos sentirá seu toque. A vida dele agora pertence a esse cárcere: o caleidoscópio incompleto. Agora levanta e acorda desse sonho. Sou sua consciência e asseguro: esse homem está perdido. Vá."
Abriu os olhos e abafou o grito com o travesseiro.Ele era o homem do caleidoscópio.
domingo, 15 de junho de 2008
Toscamente talhado por Mai Amorim às 23:41 7 outras dissonâncias Links para esta postagem
Um conto sem fadas

Seguia por uma trilha limpa, um pouco inclinada e cercada por uma vegetação baixa. O vento soprava suave, balançando o lenço vermelho que ela trazia amarrado na cintura e os cabelos escuros presos num rabo-de-cavalo descuidado.As mãos segurando firme uma cesta de madeira, de onde ela ia tirando coisas e jogando pelo caminho.
A trilha agora fazia uma curva e descia, quase num desfiladeiro, num caminho difícil e escorregadio. Ela abaixou e foi descendo, ainda jogando as coisas da cesta no chão. Machucou o pé no fim da descida, num espinho de alguma planta. Não parou pra analisar. Mancando um pouco, prosseguiu o caminho, agora adentrando numa floresta fechada e escura. A vegetação densa trazia uma certa umidade para o ar, mesmo com o sol transpassando sem dó os vãos entre as folhagens.
Ela seguia com o olhar baixo, mas firme. Jogando as coisas no chão. Não reparara ainda que atrás de si, aves de rapina ia comendo todo o rastro que ela tinha deixado. Aves de vôo silencioso, penas negras reluzentes, olhos amarelos frios e penetrantes e garras curvas afiadas.
O ar úmido demais foi tornando difícil a respiração e ela sentiu as pernas falharem.Quase em câmera lenta, caiu no chão coberto de folhas secas, fechou os olhos e buscou o ar. Quando abriu, olhou para trás e viu as aves.
Encarou-as lentamente. Cada par de olhos amarelos. Engoliu seco e levantou-se, ainda fraca. Agarrou a alça da cesta que já estava quase vazia e recomeçou a andar. Uma chuva fina começou a cair e o vento ficou mais forte, arrancando o lenço vermelho. Ela parou de andar, hesitou mas não virou pra trás.Avistou uma caverna. Juntou as forças e correu, ao mesmo tempo que a tempestade desabava. Olhou para dentro da cesta e viu seu último sonho.
Jogou o sonho para trás e entrou na caverna feita de doces envenenados.
terça-feira, 10 de junho de 2008
Toscamente talhado por Mai Amorim às 17:40 4 outras dissonâncias Links para esta postagem