
Era impressionante a capacidade que ela tinha de viver algo que não era real. Os olhares furtivos captavam as imagens alheias e um pequeno filme começava a ser processado por detrás das retinas ávidas. Um toque que nunca existiu, um beijo que nunca foi dado, um passeio que nunca foi trilhado...pequenas coisas em pequenos quadros que irremediavelmente iam passando em sua mente.
E os filmes foram crescendo.
Vivia suas fantasias num êxtase silencioso.Nos seus inúmeros universos paralelos, alimentava cada uma compulsivamente. Captava olhares amorosos que não eram para ela e maquinava a lembrança até encaixá-la na sua utopia cega. Abraçava a si mesma e deixava o inconsciente dizer que aquele toque era de um outro alguém que a estava protegendo de um perigo não real. Virou especialista em construir vidas a partir de coisas que não a pertenciam.
O médico disse que ela tinha algum tipo de transtorno de personalidade.
Ela só tinha medo da insegurança do que era real. Nada real é de fato seguro.
Nômade
Toscamente talhado por Mai Amorim às 21:52 5 outras dissonâncias Links para esta postagem
Marcadores: Divagações, Lethes, Platônico, Um devaneio
Entrelinhas
Logo deixamos de escrever apenas na areia molhada.Ah, você lembra de como era gostoso encontrar nossas juras secretas em cada canto inusitado da vida?Pois é... Ainda sinto um leve espasmo quando me lembro da primeira vez que li um trecho de Cássia no espelho do banheiro.Foi bom, foi bom... Você sorria e dizia sonhar em me escrever Cazuza na neve.
Parecíamos viver com uma trilha sonora! Acho que é impossível eu olhar para qualquer CD dessa estante e não associar uma música a algum momento nosso ou a alguma parte do seu corpo.Você está em cada faixa.
Ah, sabe do quê eu me lembrei?De quando eu escrevia na sua agenda com caneta verde alguma música em inglês. Você detestava as duas coisas: a caneta verde e a língua inglesa.E eu docemente lançava o desafio para que você traduzisse. Em troca, você escrevia nos meus cadernos com caneta vermelha alguma coisa em francês.Ainda guardo o dicionário...
Estou sentada agora no sofá.Aquele mesmo onde nos sentávamos depois de um dia particularmente estressante e cuidávamos uma da outra.Aquele sofá que nos custou caro, que nos fez economizar em tudo e nos propiciou os melhores jantares à luz de velas, uma vez que tínhamos que reduzir a conta de energia. Aquele mesmo sofá onde me deitei aquele dia e chorei.
Você não lembra porque não estava aqui.
Daqui eu olho a escrivaninha escura. Aquela, onde você me deixou um papel escrito Cazuza, em caneta azul, junto com a chave do apartamento.Bom, no mínimo, irônico. Cazuza. Nada de neve,só a madeira escura. E a caneta azul, dessas baratinhas mesmo,que a tinta borra tudo.
Falo com a sua secretária eletrônica, que nem ao menos tem uma música agradável de recepção.Só aquela tentativa de reproduzir algo erudito.E eu sei que você está me ouvindo, só não quer atender.Mas essa foi a primeira e última ligação. Meu repertório acabou. Fico só com um requiem, sem letra para te escrever os trechos. Pode ficar com ele todo.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Toscamente talhado por Mai Amorim às 19:18 8 outras dissonâncias Links para esta postagem
Marcadores: Amor
Uma última vez

As rodas rompiam a camada de água que cobria a pista numa velocidade nem um pouco sensata. O pobre motor reclamava do esforço demasiado e não fosse a chuva torrencial lá fora e o rock pesado dentro do veículo, o seu rugido seria irritantemente alto.
Ele trazia na face uma expressão rígida, causada pela tensão do maxilar.Trincou os dentes numa morida cega, para que nada saísse da sua garganta.Os dois vincos na testa acompanhavam o olhar fixo na estrada à frente, para que ele não ousasse baixar a guarda e olhar o celular que piscava no banco vazio do passageiro.Aumentou o som quando uma guitarra distorcida iniciou um solo denso e triste, focando a audição apenas nos acordes e ignorando o bip do telefone. Acelerador enterrado até o fim.
Arriscou tudo e perdeu. Não precisava de mais comprovações, não queria ler um "desculpa, mas...". Já bastava o silêncio que dizia tudo com suas não-respostas.O volante vibrou quando as rodas alcançaram uma poça maior de água.A garganta doía mais que tudo, mas o maxilar continuava firme, trancando o grito bem fundo.O celular parou de piscar.
Os olhos fixos, quase frios , estreitaram-se e o maxilar cedeu um pouco, deixando uma lágrima tímida e um gemido baixo vazarem pelos canais abertos. Uma curva adiante.Guardou o celular no bolso da calça. Pedal do freio intocado.
...
Caído de bruços no asfalto frio, apalpou o bolso à procura do aparelho telefônico.Virando-se de lado, abriu o celular, ignorou as tantas chamadas perdidas e foi ler uma única mensagem.Sorriu.
A cabeça pendeu pro lado e ele sentiu o gosto de sangue.Virou o peito pra cima, para que a chuva castigasse seu corpo dolorido e discou um número no aparelho que por algum motivo ainda não pifara. Ouviu a voz trêmula do outro lado atender e o celular apagou.Deixou a mão deslizar pelo rosto cortado até cair em cima do peito.Fechou os olhos.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Toscamente talhado por Mai Amorim às 16:06 3 outras dissonâncias Links para esta postagem