Avesso

"Você não gosta de planejar o futuro?", perguntaram a ela. Depois de uma pausa de reflexão, respondeu que sim, gostava e planejava o futuro. "Mas você já fez isso com tantas pessoas e todas as vezes nada deu certo... você não fica apreensiva de tentar de novo?", ponderou a outra garota. Ela respirou fundo, escondendo a dor que sentira naquela fração de segundos de recordações indigestas.Respondeu que era verdade, tinha mesmo planejado e quebrado a cara, mas que ela não costumava aprender as coisas...ou seja, repetia os mesmos erros já tantas vezes cometidos, na esperança vaga e cega de que dessa vez poderia ser diferente.Mas geralmente era tudo igual. "Eu não gosto de planejar o futuro. Descobri que a vida nem sempre é um conto de fadas.Na verdade, nunca é. Foi você quem me ajudou a enxergar isso.", ouviu como resposta.
Sentiam-se estranhamente distantes, como se estivessem deitadas num quarto escuro,cada uma em seu canto, apenas ligadas pela tênue linha da voz. A garota que ainda planejava o futuro mexeu-se desconfortável no banco duro ao perceber que começava a desacreditar dos seus últimos planos traçados. "Mas é só o que eu tenho. Então me agarro a isso...a planos e sonhos.", disse para a outra menina.
Depois de cada uma ir para seu rumo, a garota que ainda planejava o futuro pensava seriamente em largar os esquadros e canetas.Andou determinada pelo seu jardim interior, pegou todos os seus instrumentos de arquitetura de planos e os enterrou debaixo do pé de lírios.
Amanhã ela voltará para buscá-los. Por hora, prefere acreditar que eles ficarão lá.


~ Abra os olhos. Agora, mira à tua frente.
Vês? Todos os teus sonhos, anseios e planos. Todas as tuas utopias, ilusões alimentadas e promessas. Exatamente onde deviam estar: diante de ti. Suficientemente perto para que possas ver; suficientemente longe para que desistas antes de tentar.
Mira à tuas costas. Tudo aquilo que foste um dia. Cuidado para não desequilibrar-te ao virar a cabeça, é perigoso demais querer voltar atrás.
Agora, mira abaixo de ti. Percebes onde estás apoiada? É uma corda-bamba. Aguça a visão agora.
Vês? O rio de tuas lamentações, dores, medos e barreiras. De tuas decepções, ilusões desfeitas e histórias inacabadas. Exatamente onde deviam estar: abaixo da tua corda-bamba, à espreita do teu deslize para afogar-te.
Olha para ti agora. Peito nu aberto ao vento e a tudo que ele traz; pés descalços e sofridos. Exatamente onde devias estar: suspensa entre o que tu foste e o que tu poderás ser, condenada a equilibrar-te na corda em brasa da tua inconstância e indecisão, presa nesse estado de não-ser, a um passo de tudo e a um mergulho pro nada!
Não, não olhe para cima...
Olhaste? Contempla agora teu céu sem estrelas; céu que pintaste à mão, no espelho da tua alma! ~

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Liga o som e apaga a dor

A bateria de Farther Away troava pelo aparelho de som apoiado na pia, fazendo vibrar algumas pocinhas d'agua. Encostada na parede fria, sentia minhas própias poças vibrando.Parei para contar quantas eram, fechando os olhos . [Eu te vejo lá, bem longe]
O que encontrei foi uma enseada inteira - e conturbada.

Na seqüência mais que conhecida, chegou o piano melancólico de Breathe no More, e com ele veio o meu estado hipnótico mais grave: aquele no qual cruzo os braços e me escondo. Pareço flutuar num patamar estranhamente sóbrio em meio a toda ebriedade dos meus momentos de aflição. [Minta para mim,convença-me de que eu sempre estive doente e que tudo isso fará sentido quando eu melhorar].
O clímax, entretanto, ainda estava por vir. Sorri aquele meu riso torto, todo errado, de quem mistura êxtase, dor e prazer. Imaginary irrompia seu poder sobre mim. E eu reinava na minha insanidade.
[Me deixe ficar,
Onde o vento sussurra para mim
Onde as gotas de chuva
contam histórias enquanto caem

No meu campo de flores de papel
E nuvens doces de canções de ninar
Eu deitei dentro de mim mesma por horas
E vi o meu céu roxo voar sobre mim]




~ Na beira do Lethes, ela despetalava uma rosa. Quando se deu conta do que fazia, acariciou a flor como se pedisse desculpas e a colocou no chão do seu lado. Olhou para a outra margem do rio e respirou fundo, penosamente. Trazia a blusa aberta e o peito nu, de modo que o colar que usava pendia livre e balançava ritmadamente, embalado pelo vento.Ela o prendeu entre os dedos de forma sutil e fechou os olhos. Sorriu. Então, percebeu uma movimentação ao seu lado e olhou. Um homem ofegante vinha correndo em direção ao rio e, sem delongas, se atirou no Lethes, nadando desesperadamente e engolindo grandes golfadas da água cristalina. E então sumiu.Segundos depois, saiu na outra margem, visivelmente desorientado. Sentou-se no chão e lá ficou. Ela o fitava, da margem oposta. Assim ficaram.
Ela então levantou-se, pegou a rosa e deu um passo em direção ao rio, enquanto ajeitava a flor entre os dedos. Um espinho a furou. Olhando para o sangue que brotava rápido e quente do pequeno furo, ela sorriu. Olhou novamente para o homem do outro lado e deu as costas para o Lethes. Apertou a rosa contra o peito e se foi. ~

(*) Na mitologia, o Lethes é um dos cinco rios que correm pelo reino de Hades. Quem o atravessasse, esqueceria da vida prévia e renasceria. É o rio do esquecimento.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

 
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