
A névoa do lado de fora mostrava que ainda era muito cedo: os tímidos raios de sol não conseguiam desfazer aquela densa cortina branca.Ela gostava disso.Talvez porque fizesse um paralelo com o que se passava dentro dela. Talvez não - gostava e pronto. Encostou a testa na janela fria e viu sua respiração condensar no vidro. O trem agora fazia uma curva aberta e ela pôde ver que passavam por uma espécie de ponte.Se arrumou na poltrona para observar a vegetação lá de baixo, toda mergulhada na tal neblina e sentiu o frio que pesava do lado de fora do trem aquecido.
O sol agora começava a sobrepujar a neblina e o espetáculo dos opostos ficava ainda mais belo. A garota olhou para os outros viajantes que dormiam pesadamente, mergulhados em seus próprios mundos. Voltou a olhar para a janela, voltou a marcá-la com sua respiração. Delicadamente, escreveu algo e sorriu. Então, fechou os olhos e dormiu.Precisava sonhar, precisava viver.
~ E na janela, marcado: "Para Sempre, HASSAN"
É...mais um daqueles momentos em que vivo milhões de coisas, sinto outras bilhões e não consigo escrever nada a respeito, me fogem as palavras, as idéias... tudo!Mas basta olhar nos meus olhos.Basta olhar, que eles contam todo o resto.
Saudade do agora e do que virá.
Toscamente talhado por Mai Amorim às 22:44 7 outras dissonâncias Links para esta postagem
"Cutucando, relembrando, reabrindo..."

Há tempos que nesse blog não tem um post por completo feliz. Reparava nisso ontem, enquanto me encolhia no canto da cama, tentando me enterrar no escuro pesado do quarto. Também, pudera! Há tempos que feliz não é bem a palavra que se encaixa nisso tudo aqui dentro.
Enquanto a noite chega [dentro e fora de mim], eu percebo que será mais uma daquelas vezes em que "as paredes do meu quarto vão assistir comigo a versão nova de uma velha história". Então eu me encolho no meu desespero, grito no meu silêncio, me afogo na minha dor... Assim, quase que inevitavelmente, eu deslizo pelo "velho texto batido (...)".
E ontem, mais do que qualquer dia dessas últimas semanas, me senti absurdamente sozinha.Não aquela solidão de não ter ninguém do lado, fisicamente. Mas aquele sentimento de vazio, de vacuidade, de que você está incompleto... parece que a alma vestiu um véu negro e declarou luto. Mas luto por quê?Por quem?Ninguém foi embora, todos estão aqui: amigos, família, amores, cachorras, hamster...
Acho que fui eu... eu que me fui. Eu que adentrei em algum canto escuro aqui. Lembrei do post Dispersões e o do cogumelo atômico.Engraçado, tanto tempo passou e eles continuam a fazer sentido,talvez por razões diferentes, mas fazem.
Se eu tivesse um carro, teria ido ontem à praia. Desceria descalça, sentiria a areia fria nos pés e o vento salobro no rosto. Sentaria à beira mar e ficaria observando o mar, cantando quase inconscientemente Vento no Litoral [mesmo sendo noite, e não tarde ^^ ]. Deixaria as ondas molharem meus pés e pediria para elas me levarem.Depois pensaria melhor e mudaria o pedido.
Isso era SE. Como o "se" não se consolida para mim, como nunca vira presente do indicativo, fiquei mesmo na praia das minhas dores, pisando nas minhas ondas de ilusões, andando pela areia fria dos meus sonhos moídos.
~ "A vida se repete na estação."
domingo, 18 de novembro de 2007
Toscamente talhado por Mai Amorim às 09:53 7 outras dissonâncias Links para esta postagem
Marcadores: Cogumelo Atômico, Dispersão, Vazio
E nesse cárcere, o tempo é meu companheiro de cela
E por fim, é isso que fica.
Esse frio. Assim, desconfortável, cortante.Que depois de muitos cobertores, agasalhos, cachecóis e chocolates quentes, continua a gelar. E aí você percebe que o frio não é na pele. É nos ossos. Ou melhor, na alma.
Essa dor. Assim, infinda e insuportavelmente real. Uma dor estranha e corrosiva... ácida. É aquela dor por detrás dos olhos. Sorrir dói. Respirar dói mais ainda. A lágrima que chora pra dentro, queima.
Esse vazio. De tanta confusão de sentimentos, contraditórios e complementares, de tanta coisa, é isso que fica.Vazio.De todas as lembranças e pensamentos... de tudo, vazio.
É... é isso que fica. Esse frio, essa dor, esse vazio.
Essa saudade.
Mas daí você vem e tudo passa.
~ Sabe aqueles momentos únicos? Vivi um ontem. As lágrimas foram testemunhas da intensidade e verdade das palavras proferidas.Palavras essas já tantas vezes traduzidas na mais perfeita silenciosa promessa de união eterna, teu abraço.
[Cazuza, de fundo musical, nos canta Exagerado.E sinto teu sorriso.]
~ Créditos do título do post a Gill. ^^
sábado, 10 de novembro de 2007
Toscamente talhado por Mai Amorim às 14:46 16 outras dissonâncias Links para esta postagem

"Considera, meu amor, a que cúmulo chegou tua imprudência. Ah,infeliz! Foste traído e me traíste por esperanças enganosas. Uma paixão sobre a qual fizeras tantos projetos de prazer não te traz agora senão um mortal desespero, que só se compara à crueldade da ausência que o causa. mas como?Essa ausência, para a qual minha dor, com todo o seu engenho, não encontra nome funesto bastante, há-de privar-me para sempre de mirar esses olhos, nos quais via tanto amor e que me faziam conhecer ímpetos que me enchiam de felicidade, que valiam por tudo o mais, que enfim me saciavam? Ai, os meus ficam privados da única luz que os animava, não lhes resta mais que lágrimas; empreguei-os tão-só a chorar sem fim desde que soube que te havias afinal decidido a um afastamento que, de tão insuportável, me levará à morte em pouco tempo. Ainda assim, parece que tenho algum apego aos infortúnios de que és a causa única:destinei-te minha vida tão logo te vi, e sinto certo prazer em sacrificá-la a ti. Mil vezes por dia envio meus suspiros para ti, eles te procuram por toda parte (...)"
Trecho de Cartas Portuguesas de Gabriel de Lavergne, visconde de Guilleragues.
~ Não me atrevo a escrever nada a respeito. Achei lindo e temo pecar em comentar algo.
sábado, 3 de novembro de 2007
Toscamente talhado por Mai Amorim às 20:05 8 outras dissonâncias Links para esta postagem